sexta-feira, 13 de Novembro de 2009
Conversa Filosófica com Francisco Fortes (13 anos)
- "Quando é que a vida tem sentido?"
- "A vida tem sentido quando nós naquele momento (Presente) temos o que queremos, como amigos, família, andar numa boa escola e ter boas notas. Isso é o que nós queremos quando somos mais novos. Depois, mais tarde, temos de começar a pensar no que queremos quando acabarmos a faculdade.
Temos que arranjar um emprego para adicionar mais uma coisa ao que queremos na vida para lhe dar sentido." (Francisco)
http://filosofiacritica.wordpress.com/
quarta-feira, 4 de Novembro de 2009
Jovens Filósofos no Colégio do Sardão
1ª Sessão no Colégio do Sardão (Gaia) a 4 de Novembro de 2009.
22 alunos do 4º ano (10 anos).*
Objectivos Gerais do curso Jovens Filósofos
1 - Ensinar e ajudar as crianças a pensar por si mesmas.
2 - Criar condições para que as crianças se ajudem umas às outras a pensar.
3 - Dar tempo e espaço a cada criança para pensar e fazer-se ouvir sobre o tópico em questão.
4 - Deixar que as crianças (e não o professor) liderem e determinem o conteúdo da sessão através do consenso acerca dos temas a aprofundar, aumentando assim a sua auto-estima e confiança nas suas capacidades de raciocínio.
5 - Criar um ambiente de reflexão ao mesmo tempo relaxado e sério que permita o aprofundar das questões em debate.
6 - Fomentar competências de argumentação e pensamento autónomo, crítico e criativo (competências transversais a todas as disciplinas - tão essenciais quanto saber ler e escrever - e essenciais para a vida).
Objectivos específicos desta (1ª) sessão
1 - Trabalhar a atenção dos alunos; fazer com que se ouçam e se compreendam.
2 - Fomentar a compreensão das condições necessárias para o trabalho filosófico (ver Nota Final)
Estrutura do Exercício
1) Pergunta
2) Cada aluno avança uma hipótese/resposta
3) Análise crítica da resposta pela turma
Resumo da Sessão
1) As crianças sabem fazer filosofia?
Pediu-se às crianças que identificassem, sublinhando nos seus cadernos, um conceito (palavra) que não compreendessem. Todos sublinharam a palavra filosofia e desta forma iniciamos a nossa investigação.
Explicou-se aos alunos o significado do termo filosofia (amizade + sabedoria), e perguntou-se o que era um filósofo de acordo com este significado.
Após algumas tentativas foi sugerida a seguinte definição: Um filósofo é um amigo da sabedoria
Para saber se as crianças sabem fazer filosofia (isto é, se são filósofos) tinhamos agora de saber o que era um filósofo, ou seja, saber o que é isto de ser amigo da sabedoria.
Encontraram-se os dois conceitos (palavras) necessários para compreender esta definição: amizade e sabedoria. De seguida pediram-se as duas perguntas (subsidiárias da primeira pergunta) necessárias para investigar estes dois conceitos:
- O que é um amigo.
- O que é a sabedoria.
Nesta sessão ocupámo-nos da primeira pergunta relativa à amizade, e deixámos para uma segunda sessão a investigação da questão relativa à sabedoria. A questão principal, se As crianças sabem fazer filosofia, será aprofundada numa terceira sessão (ainda que, no fim desta sessão, alguns alunos terem afirmado já saber a resposta a esta pergunta).
1) Pergunta:
O que é um amigo?
2) Hipóteses/Respostas:
a) É alguém de quem gostamos e em quem confiamos. (Rita)
b) É alguém por quem temos carinho. (Beatriz)
c) É alguém com quem brincamos. (Francisca)
3) Análise crítica das respostas pela turma
- Prefiro a resposta a) pois é a mais completa. (André)
- Gosto mais da resposta b) pois diz o mesmo que a a) por menos palavras. (Beatriz)
- A resposta c) só está um bocado certa pois podemos brincar com alguém e não ser amigos dela. Prefiro a a). (Sara)
Esgotado e tempo da sessão (1h30m) pediu-se ainda uma resposta à pergunta O que é um filósofo?
Das 22 respostas sublinho uma bastante interessante que se desenvolve a partir da ideia a que chegámos no final da sessão:
Um filósofo é alguém que gosta e confia na sabedoria.
Nota Final: Meta-diálogo
Nesta sessão, mais que o conteúdo das respostas dos alunos, interessou-nos sobretudo trabalhar os processos de raciocínio que nos levam às respostas: fazer boas perguntas, avançar com argumentos, pedir razões, ouvir os outros, compreender os outros, fazer-se ouvir, expressar-se com clareza, definir conceitos, etc.
Se numa aula normal ensina-se (e bem) o resultado final de um raciocínio (teorias, argumentos, ideias, etc.) numa sessão de FcC ensina-se o processo que nos leva a esse resultado final.
Como em todas as sessões de Filosofia com Crianças (FcC) procurei que todos esses passos fossem, não só seguidos, mas também compreendidos pelos alunos. Conhecer e compreender estes diferentes processos de raciocínio é algo com que os alunos se devem começar a familiarizar logo desde as primeiras sessões de FcC. Nesse sentido, paralelamente à sessão, fui desenvolvendo um meta-diálogo (através de algumas questões e comentários colocados por mim e pelos alunos) acerca dos pontos necessários para se fazer filosofia.
Os alunos iam descobrindo esses pontos que eram de seguida apontados no quadro:
ler, falar, ouvir os outros, compreender os outros e dar um passo de cada vez (sugerido por uma aluna) foram os pontos encontrados nesta sessão.
*agradeço ao Dr. Paulo Silva e à Irmã Fátima a oportunidade que me deram de fazer filosofia com os seus alunos.
domingo, 1 de Novembro de 2009
Jovens Filósofos na Universidade Júnior
Debate Filosófico: A minha mãe diz-me que não posso ser filósofa.
A partir de um comentário que a mãe de uma aluna lhe lançou em casa iniciou-se uma discussão em torno das questões da validade e da certeza das nossas opiniões, assim como do valor da filosofia.
Os resultados foram surpreendentes para miúdos que "não podem ser filósofos."
- A minha mãe diz-me que não posso ser filósofa porque não penso nas coisas e não tenho opiniões válidas.
Foi esta a afirmação da Maria João, 13 anos, no início da sessão e que serviu de mote à nossa discussão.
A pergunta sugerida à turma foi a seguinte:
- Devo acreditar na minha mãe quando ela me diz que não tenho opiniões válidas?
- Sim, porque mesmo que as nossas opiniões sejam certas não sabemos se estão certas porque somos crianças. Por isso não são válidas. (Tomás)
- Mas opiniões válidas são opiniões certas. (Hugo)
- Não, opiniões válidas são certas e com uma justificação. (Tomás)
- Pode haver opiniões certas e sem justificação, e mesmo assim são válidas. (Ricardo)
- Dá um exemplo. (Moderador)
- Se entrasse aqui um extraterrestre e dissesse que esta porta é uma porta mas não o soubesse justificar, a sua opinião estava certa sem estar justificada. Por isso era válida. (Ricardo)
- O que são opiniões válidas? (Moderador)
- São opiniões certas para as pessoa,s que podem depois mudar de ideias, como aconteceu com o modelo geocêntrico. Era válido pois eram certas para elas, mas depois mudaram de opinião. (Ricardo)
- Opiniões válidas são certas. (Hugo)
- Opiniões válidas são opiniões justificadas. Podem não estar certas. (Ricardo)
[Nesta altura tentei dirigir a reflexão em direcção à noção de verdade através da pergunta:
"Que nome se dá a uma opinião certa e justificada?"
O conceito de verdade permitiria articular os conceitos de certeza e validade através do conceito de opinião verdadeira. No entanto a turma preferiu avançar noutra direcção. Era uma turma de alunos com13 anos e para muitos, se não para todos, era a primeira vez que discutiam desta forma livre e civilizada. Uma verdadeira troca de ideias em que todos se ouviam e corrigiam mutuamente, sobre temas novos e interessantes. Acabei por deixá-los seguir a pista da ideia de validade enquanto "algo socialmente aceite". Esta pista acabou por se revelar bastante iluminadora para todos nós.]
- Uma opinião pode ser certa, como a do Galileu, e não ser válida pois ninguém a aceitava. (Afonso)
- As nossas opiniões são válidas se alguém as aceitar.
- A Filosofia procura opiniões válidas ou verdadeiras? (Moderador)
- Verdadeiras! (Todos em uníssono)
- Então não é por não termos opiniões válidas que não podemos ser filósofos. As nossas opiniões podem não ser válidas e, ainda assim, ser verdadeiras. (Pedro)
- Como aconteceu a Galileu. (Ana)
- E a Sócrates. (Tomás)
- Que pergunta fariam a quem vos dissesse que não têm opiniões válidas e por isso não podem ser filósofos? (Moderador)
- Será que essa tua opinião é válida? (Hugo)
- Então, o que é preciso para se ser filósofo? (Moderador)
- Cultura geral; sabedoria; fazer perguntas. (Todos)
- O que é preciso para se fazer perguntas? (Moderador)
- Necessidade; Curiosidade.
- Há mais necessidade na ciência ou na filosofia? (Moderador)
- Na ciência. Há, por exemplo, a necessidade de se encontrar a cura para o cancro. (Pedro)
- E na filosofia? (Moderador)
- Na filosofia há curiosidade. (Daniela)
- Então voltemos à nossa questão inicial: “vocês podem ser filósofos?” (Moderador)
- Sim, porque todos fazemos perguntas, temos interesse e curiosidade. (Pedro)
- Fim da sessão
Nota final
E assim se passaram mais três horas de discussão. Três horas em que árduamente se tentou quebrar a resistência de uma aluna à filosofia – resistência que contagiou a turma no início da sessão – que surgiu de um comentário imbecil de uma mãe: “Não podes ser filósofa porque não tens opiniões válidas.”
Por uns momentos deixei de pensar na função pedagógica da filosofia e interroguei-me seriamente na função anti-pedagógica de alguns pais e nesta forma tão característica de educar os filhos pela negativa.
Jovens Filósofos na Universidade Júnior
Debate Filosófico: Existem unicórnios?
Objectivos da sessão
Nesta sessão procurou-se trabalhar com os alunos a compreensão e a análise de argumentos.
Estrutura do exercício
1 – Pergunta
2 – Resposta/Argumento
3 – Contra- argumentos
4 - Debate
Resumo
1 - Existem unicórnios?
2 - Não, não existem provas que o comprovem. (Emanuel)
3 – A não existência de provas não prova que não existam. (Beatriz)
2 – Não sei, não há provas da sua existência nem da sua não existência. (Mia)
3 – Não dá uma resposta concreta. (Manuel)
- Não concordo com a Mia. Não é possível provar a não existência. (Beatriz)
4 - A ciência vai evoluir e vamos ver todo o mundo percebendo que não há unicórnios. (Miguel)
- Não vamos nunca ver todo o universo. (Manuel)
- É possível provar a impossibilidade, por isso é possível provar a não-existência. (Mia)
- Que dois conceitos usaste? (Moderador)
- Existência e impossibilidade. (Mia)
- Significam o mesmo? (Moderador)
[Debate em que se deu o exemplo de um triângulo quadrado. Introdução dos conceitos de impossibilidade lógica e de impossibilidade física.]
- Se calhar só conseguimos provar a impossibilidade lógica. Por isso o argumento da Mia é mau.
2 – Sim, porque dependem da imaginação de cada um. (Renato)
3 – Então os unicórnios existem para uns e não para outros. Como é que uma coisa pode existir e não existir ao mesmo tempo? (Mia)
4 - Pode existir mentalmente e não existir na realidade. (Renato)
- Uma coisa que exista só na nossa cabeça e não na realidade é um problema mental. (Mia)
- Só é um problema mental se não se conseguir distinguir o mental do real. (Beatriz)
3 – Se isso fosse verdade, se os unicórnios dependessem da nossa imaginação, só quem tivesse imaginação é que os veria. (Bruno)
Jovens Filósofos na Universidade Júnior
A inconsciência de um louco torna-o livre?
Objectivos
Aprofundar e problematizar conceitos.
Com este exercício quisemos mostrar aos alunos a importância central que os conceitos ocupam numa investigação filosófica, assim como o papel das perguntas no aprofundamento e compreensão desses conceitos.
Estrutura da sessão
1 – Curta conversa com os alunos para identificar alguns conceitos filosóficos.
2 – Ronda de perguntas sobre cada um dos conceitos.
3 – Aprofundamento de um dos conceitos: Liberdade (escolhido pela turma)
4 – Respostas à questão escolhida para o conceito de liberdade.
5 – Identificação dos conceitos operacionais e sua problematização
Resumo
A pretexto da apresentação de cada aluno mantivemos uma curta conversa com cada um deles onde se procurou “fazer sair” alguns conceitos que depois pedímos à turma para aprofundar e problematizar na forma de uma pergunta. O aluno responsável pelo conceito escolhia aquela que considerava ser a melhor pergunta, segundo os critérios de clareza, pertinencia e capacidade de levantar problemas filosóficos (aqui pretendemos mostrar aos alunos a necessidade de qualquer avaliação se reger por determinados critérios).
1 - Conceitos encontrados:
Altruísmo; Beleza; Informação; Discrição; Memória; Inteligência; Liberdade.
2 – Perguntas sobre cada conceito:
1) Altruísmo: Será que o altruísta também pensa em si próprio? (Maria)
2) Beleza: A beleza pode encobrir os verdadeiros gostos das pessoas? (Maria)
3) Informação: O informador foi informado por quem?(Inês) – esta pergunta suscitou uma breve discussão em volta da questão da verdade.
4) Discrição: Será que uma pessoa é discreta pois não é suficientemente boa? (Maria)
5) Memória: Uma memória vale mais ou menos que um projecto para o futuro? (Inês)
6) Inteligência: A inteligência pode afastar-nos das pessoas que gostamos? (Maria)
7) Liberdade: Somos livres?
3 – Aprofundamento de cada um dos conceitos:
Depois de discutirem em grupo cada um dos conceitos os alunos responderam por escrito e na forma de um argumento curto a esta última questão relativa à liberdade. Foram escolhidos dois argumentos:
4 – Respostas à questão escolhida relativa ao conceito de liberdade: Somos livres?
i) Não somos livres pois temos sempre alguma obrigação implicada por outros ou por nós.
ii) Sim, somos livres porque a nossa liberdade é apenas determinada pela nossa consciência.
5 - Identificação dos conceitos operacionais e sua problematização
Por fim resolvemos aprofundar esta resposta e pediu-se à turma que lhe colocassem uma questão (identificou-se o seu conceito principal: consciência)
Por fim a turma escolheu as duas perguntas (ver ponto 2) que melhor permitiam aprofundar a questão da consciência em relação ao conceito de liberdade.
a) E se não tivermos consciência, somos livres?
b) A inconsciência de um louco torna-o livre?
Nota Final
Esta sessão foi desenvolvida segundo o pressuposto de que o ensino das diferentes fases do método filosófico (e os diferentes tipos de raciocínio aplicados a cada uma dessas fases) deve ser explícito, ou seja, deve ser ensinado directamente ao aluno com a indicação exacta do que é que está a fazer naquele preciso momento, quer seja aprofundar um problema através de uma pergunta, a encontrar um conceito que lhe permita avançar com a investigação, a arriscar uma hipótese na forma de um argumento ou a analisar um argumento.
Com este tipo de exercícios pretendemos que os alunos ganhem consciência desses diferentes momentos de uma investigação filosófica (neste caso os momentos da problematização, conceptualização, argumentação) e que avancem de forma competente em cada um deles, por oposição à maneira confusa e mais ou menos intuitiva como, à imagem de tantos adultos, normalmente raciocinam.
Glossário
conceito operacional
A introdução de um novo conceito numa reflexão filosófica permite:
Problematizar uma posição - perante a proposição de que a “certeza é igual à verdade”, o conceito de “erro” ajuda a pôr essa ideia em causa;
Unir dois conceitos – para justificar a ideia que “opinião e verdade são a mesma coisa”, o conceito de “crença” pode servir para unir esses dois conceitos num conceito mais abrangente: “Opinião e verdade são crenças”;
Resolver um impasse - o conceito de “verdade pessoal” pode ajudar a ultrapassar a dicotomia entre a crença numa “verdade absoluta” e a crença na “inexistência de verdade”.
Distinguir dois conceitos - a noção de “raciocínio” pode ajudar a distinguir os conceitos de “conhecimento” e “sentimento”.
Clarificar uma ambiguidade – o conceito de “intencionalidade” pode ajudar a distinguir os sentidos diferentes da proposição “estava consciente do que fazia”.
Aprofundar um conceito - a noção de “conhecimento intuitivo” pode aprofundar a questão dos diferentes tipos de conhecimento.
Formular uma definição - qualquer definição (não circular) precisa de um conceito novo que explique o sentido do que se quer definir.
conceptualização
A capacidade que os seres humanos detêm de integrar e organizar as informações que lhes chegam pelos sentidos, passando dessa forma do nível perceptual, que partilhamos com os animais, para o nível conceptual único nos seres humanos.
Existem diversas formas de se fazer sair os conceitos de uma discussão:
Que nome se dá a uma pessoa que pensa assim?; Que conceito fundamental subjaz a esse argumento?; Qual o oposto desse conceito?; Que argumento defenderia quem preferisse esse valor/conceito?; etc.
Os conceitos são os instrumentos de investigação filosófica por excelência
problematização
O ser humano é verdadeiramente livre de agir como quer?
Problematizar é a capacidade para desenvolver e aprofundar problemas.
Esta capacidade está intimamente ligada à nossa capacidade de conceptualizar, uma vez que, para aprofundar ou desenvolver um problema temos necessariamente de utilizar novos conceitos.
Desenvolver e aprofundar filosoficamente o problema exemplificado é procurar saber que conceitos é que lhe podem estar associados e perceber as suas implicações:
Posso ser consciente dos meus desejos? (consciência)
Estarei condicionado a ter determinados desejos? (determinismo)
A vontade é capaz de contrariar um desejo? (livre-arbítrio; vontade livre)
Outra forma de problematizaro é relacionando duas ou mais proposições diferentes, quer articulando-as numa problemática (na forma de uma pergunta) quer resolvendo-as com um novo conceito (na forma de uma nova proposição). Por exemplo, ao tratar a questão da generosidade deparamo-nos com duas proposições disitintas: A generosidade é algo inerente a todo o ser humano e A generosidade só se manifesta em actos humanos com consequências sociais. Aqui a problematização pode adoptar a forma de uma pergunta que abra ainda mais a rede de conceitos a explorar, A generosidade humana pode ser anulada pela própria inserção involuntária do homem numa sociedade?
sábado, 31 de Outubro de 2009
Jovens Filósofos na Universidade Júnior
Aprender a fazer perguntas.
Objectivos da sessão:
Nesta sessão tentámos sobretudo praticar a difícil arte de fazer boas perguntas filosóficas. Procurou-se que os alunos percebessem a importância de uma boa pergunta no aprofundamento e compreensão dos problemas da filosofia. (Pontos 1 e 2)
Também tentámos, em alguns momentos da sessão, os alunos dessem alguns passos de investigação filosófica propriamente dita: conceptualização, argumentação, justificação e problematização. (Pontos 3 e 4)
Estrutura do exercício:
1 – Encontrar um conceito a analisar e o seu oposto.
2 – Formulação de uma pergunta que problematize um dos conceitos.
3 – Resposta argumentada ao problema (escolha de uma resposta pela turma segundo os critérios de clareza, pertinência e argumentação).
4 – Encontrar conceitos operativos (que superem/resolvam um problema)
Primeiro par de conceitos:
1 - Precisão/ Imprecisão (Nuno)
2 – De que forma a imprecisão mental pode influenciar a solução de problemas? (Raquel)
Seguiu-se um curto debate sobre a imprecisão associada à multiplicidade de escolhas e da precisão a uma só escolha.
Proposta de um aluno: No momento da decisão devemos ser precisos. Até lá devemos ser imprecisos. Isso aumenta a nossa possibilidade de escolha.
3 – [o aluno que formulou a questão escolhe aquelas que considera serem as melhores respostas / argumentos segundo os critérios referidos]:
i) Através da generalidade (imprecisão) compreendemos melhor o problema.
ii) Através da imprecisão há uma ilimitação de soluções.
Tinhamos agora diante de nós dois conceitos (generalidade e ilimitação).
4 - [Nesta altura sugeriu-se que seria uma interessante linha de investigação tentar juntar estes dois conceitos, possívelmente noutro conceito]:
iii) A imprecisão baseada numa generalidade de conhecimentos pode conduzir a uma ilimitação de soluções. (Lara)
Conceito encontrado: ilimitação de soluções
iv) A imprecisão mental pode influenciar a solução de problemas pois tendo várias ideias (generalidade) podemos escolher a melhor. Se tivermos apenas uma (precisão) o poder de escolha é nulo, ou seja, tem limites.
Conceito encontrado: poder de escolha.
Segundo par de conceitos:
1 - Egoismo / Altruísmo
2 – O que nos leva a ajudar os outros?
3 - [sem resposta]
Terceiro par de conceitos:
1 - Amor / Ódio
2 - Como seria se houvesse uma só palavra para amor e amizade?
3 - Seria como agora em que existem a mesma palavra para coisas diferentes. Assento e acento; banco de sentar e banco de dinheiro. Entenderíamos pelo contexto. (Teresa)
Quarto par de conceitos:
1 – Instinto / Razão
2 - Uma pessoa instintiva age melhor que uma pessoa racional?
Outras perguntas: É racional ser instintivo?; Somos inteiramente racionais?
Quinto par de conceitos:
1 – Concentração / Criatividade
2 - Uma pessoa concentrada pode ser criativa? (Catarina)
Sexto par de conceitos:
1 – Tristeza / Alegria
2 - Para que serve a tristeza?
Sétimo par de conceitos analisado:
1 – Exploração / Descoberta
2 - Como se explora e descobre a mente humana? (Catarina)
Outras perguntas: É possível explorar sem descobrir?; É possível descobrir sem explorar?; A filosofia é uma exploração ou uma descoberta?
sexta-feira, 30 de Outubro de 2009
Liberdade Poética
LIBERDADE
Vim ao mundo gratuitamente
não tenho de pagar o que como
nem o que bebo
não tenho de pagar
a ponta de um corno pela vida
nem tenho de trabalhar
para pagar o que como
e o que bebo
não tenho de me sacrificar
por coisa nenhuma
a vida é livre e gratuita
só faço o que quero
o que me dá na real gana
e é isto que vos tinha a dizer.
A. Pedro Ribeiro
domingo, 25 de Outubro de 2009
20º Café Filosófico
Fotografia: José Rui Moreira Correia
Esta foi a pergunta de que nos ocupámos nesta que foi a vigésima edição do Café Filosófico.
Conforme se fez notar no início da sessão esta pergunta tem dois conceitos que importava compreender antes de lhe tentar responder: escravidão e liberdade.
Nesse sentido começámos por problematizar a questão da escravidão e deixámos para a segunda parte da sessão a questão da liberdade. Deixámos para o fim da sessão tentar responder, na forma de síntese, à pergunta inicial: Um escravo pode ser livre?
A pergunta (subsidiária) que deu início ao debate na primeira parte foi:
1ª parte - O que é um escravo?
1 - Quem é preso pelo seu próprio pensamento (Olga);
2 - Ser humano racional privado da condição humana (Júlio);
3 - É alguém que não consegue libertar-se das amarras físicas, psicológicas e sociais (Manuel);
4 - Quem pensa na liberdade (Mª José).
Conceitos subjacentes a estas respostas:
1 - Medo (também referido Formatação, Culpa, Consciência, Rigidez, Aprisionamento);
2 - Social;
3 - Submissão;
4 - Insatisfação (também referido Consciência, Necessidade, Opressão).
Fotografia: José Rui Moreira Correia2ª parte - O que é ser livre?
Deixámos para a segunda parte o tratamento do conceito de liberdade sob a forma da pergunta:
O que é ser livre?
1 - Ser livre é acomodarmo-nos (Zé Rui);
2 - É expôr o pensamento com o risco de ser aceite ou não;
3 - É lidar com o medo, com esperança de superar as insatisfações e com o mínimo de constrangimentos sociais (Rui);
4 - Processo permanente de superação (Augusto);
Conceitos subjacentes às definições anteriores:
1 - Acomodação
2 - Risco
3 - Inconformismo
4 - Superação
Algumas respostas:
(em construção)
Síntese
Um escravo pode ser livre?
1 - Sim, se ultrapassar o medo. (Paulo)
2 - Sim, se não se acomodar e "correr"o medo. (Augusto)
3 - Sim, se se superar, ou se se acomodar aos condicionalismos dessa condição. (Mª Manuel)
4 - Não, porque não pode superar a sua insatisfação. (Mª José)
5 - Sim, se socialmente não tiver referências de liberdade e intrínsecamente se acomodar. (Manuel)
6 - Não, porque por muito que o deseje há factores externos que condicionam essa decisão. (Mª de Jesus)
7 - Não, porque é escravo porque não é capaz de superar a insatisfação pela sua limitação. (Ana)
8 - Sim, porque a insatisfação, o inconformismo e o risco podem superar as condicionantes sociais e psicológicas. (Manuel)
9 - Sim, se superar os seus condicionalismos. (Fátima)
10 - Sim, os escravos podem ser livres porque podem superar a sua insatisfação, aceitando o incontornável. (Raquel)
11- Sim, porque tem a capacidade e o poder de sonhar (Chantal)
Resultado
O objectivo desta análise dos conceitos de escravidão e liberdade, que antecedeu a abordagem à pergunta principal, foi o de "abrir" estes conceitos às suas diversas significações e, dessa forma, abrir também a pergunta a diversas possibilidades.
Julgo que a variedade das respostas que atingimos no final da sessão mostrou que vale a pena esse esforço inicial.
sexta-feira, 23 de Outubro de 2009
Filosofia na Reitoria IV
Pensar sobre o Pensar
- Estrutura, objectivos e resultados
Descrição
Oficina de Filosofia Prática e Pensamento Crítico
Reitoria da Universidade do Porto
Dias 13, 14, 15, 16, 20, 21, 22 e 23 de Outubro de 2009
Horário - 18h30 21h30
Nº de Alunos - 15*
Nº total de horas – 24h (8/3h)
1ª e 2ª Sessões – A Arte de Perguntar
Estrutura das Sessões
Introdução à Filosofia Prática e ao Pensamento Crítico.
Os vários momentos da investigação filosófica: problematização; conceptualização; argumentação; definição; síntese.
Foco nos momentos de problematização e conceptualização:
- escolha de um conceito filosófico a tratar durante toda a Oficina: liberdade
- problematização dos vários conceitos associados a liberdade (consciência, felicidade, vontade, escolha…)
Objectivos
Encontrar e aprofundar problemas filosóficos.
Aprender a formular boas perguntas filosóficas (claras, pertinentes, problematizadoras).
Resultado
Pode um escravo ser feliz? (pergunta escolhida ao fim das duas sessões)
3ª Sessão – Introdução ao Pensamento Crítico
Estrutura da Sessão
Foco nos momentos de argumentação e conceptualização
Procura de respostas à pergunta Pode um escravo ser feliz?
Conceptualização (justificada) das respostas alcançadas.
Os vários momentos críticos da avaliação de um argumento:
- Análise Primária (clareza, pertinência, argumentação)
- Análise Intermédia (razões, conclusão, estrutura, pressupostos, ambiguidades…)
- Avaliação do Conteúdo (avaliação das razões e do raciocínio, conclusões alternativas)
Foco na Análise Primária
Objectivos
Confrontar os alunos com erros de raciocínio e argumentação comuns (falta de clareza, de pertinência e ausência de argumentação)
Demonstrar a importância da clarificação conceptual no processo de investigação filosófica.
4ª e 5ª Sessões – Diálogo Socrático Filosófico I e II
Estrutura das Sessões
Procura conjunta de uma definição de Liberdade através do “método socrático” desenvolvido por Leonard Nelson.
Objectivos
Praticar a discussão em grupo (ouvir e respeitar o próximo, procurar consensos)
Tomar consciência da dificuldade e profundidade dos problemas filosóficos.
Aprofundar a compreensão das várias “dimensões” do conceito de liberdade.
Resultados
Definição de liberdade encontrada pelo grupo após 6 horas de debate filosófico:
Liberdade é a experiência da relevância das nossas escolhas ou da ausência de constrangimentos.
6ª e 7ª Sessões – Curso de Pensamento Crítico I e II
Estrutura das Sessões
Curso de Pensamento Crítico I - Análise de Argumentos
Curso de Pensamento Crítico II – Avaliação de Argumentos
Objectivos
Aprendizagem, prática e aperfeiçoamento de técnicas de análise a avaliação de argumentos
Resultado
Avaliação na aula de alguns argumentos de S. Tomás de Aquino, Baruch Spinoza e Henri Bergson sobre a Liberdade
8ª Sessão – Debate Filosófico
Estrutura da Sessão
Formulação de um argumento curto que responda à questão: Somos livres?
Debate filosófico em torno das respostas obtidas e da "luz" que os conceitos subjacentes a essas respostas lançam sobre a questão da liberdade, abrindo-nos possíveis vias de investigação.
Objectivos
Praticar em argumentos e em debates filosóficos reais as técnicas e competências adquiridas durante a Oficina
* os meus agradecimentos a todos os participantes desta 1ª Oficina que tornaram tão agradável e desafiadora estas duas semanas
quinta-feira, 22 de Outubro de 2009
terça-feira, 20 de Outubro de 2009
Filosofia na Reitoria III - Definição de Liberdade
"Leões" em frente à Reitoria da UPsegunda-feira, 19 de Outubro de 2009
19º Café Filosófico - A Verdade

sexta-feira, 16 de Outubro de 2009
quinta-feira, 15 de Outubro de 2009
Filosofia na Reitoria II
Resumo da 3ª sessãoquarta-feira, 14 de Outubro de 2009
Filosofia na Reitoria I - Liberdade
1ª Oficina de Filosofia Prática e Pensamento CríticoReitoria da Universidade do Porto
Resumo das duas primeiras sessões (13 e 14 de Outubro)
Logo na primeira sessão desta Oficina o grupo escolheu o conceito de liberdade como conceito a debater.
Sempre com este conceito presente foram sendo avançadas perguntas que iam abrindo o debate relacionando o conceito de liberdade com outros interligados como o de felicidade, vontade, escolha, consciência, etc.
Através das suas perguntas e respostas os participantes iam descobrindo novas perspectivas que permitiam o encontro com novos conceitos que iam, ora clarificando, ora dificultando, ora aprofundando a nossa investigação em torno da Liberdade.
Uma das perguntas que mais interessou o grupo era acerca da relação entre o conceito de Liberdade e o conceito de Felicidade, mais concretamente procurando saber se a Liberdade é uma condição suficiente para a Felicidade, ou seja, se basta haver liberdade para haver felicidade. Naturalmente a questão de saber se a liberdade é de todo necessária à felicidade também foi debatida, ou melhor, problematizada, uma vez que nestas duas primeiras sessões procurou-se sobretudo trabalhar a capacidade de fazer boas perguntas filosóficas e de encontrar conceitos pertinentes - Problematização e Conceptualização.
A pergunta que atingimos ao fim de duas sessões e de 6 horas de intensa discussão filosófica permitiu clarificar toda a questão e dirigir a investigação num sentido (de liberdade) muito claro:
Pode um escravo ser feliz?
Amanhã continuaremos a pensar...
segunda-feira, 5 de Outubro de 2009
17º Café Filosófico no E-Learning Café - Suporte e Reactividade

domingo, 4 de Outubro de 2009
16º Café Filosófico no CLP - "Sonhos"
Fotografia: José Rui Moreira CorreiaSonhei esta noite com uma máquina que mostrava as coisas tal como elas já não eram.
Fernando Lanhas in "Sonhos"
A partir de alguns excertos da obra "Sonhos" de Fernando Lanhas falámos da morte, do fim, da eternidade, da libertação, do medo e de diferentes estados de consciência.
No final do Café Filosófico pediu-se aos participantes que respondessem por escrito à questão
"O que é um sonho?"
"Um sonho é uma utopia";
"Os sonhos são os nossos desejos frustrados";
"Alguns sonhos podem ser premonitórios";
"Os sonhos são o que as coisas virão a ser. Tornamo-nos naquilo que sonhamos";
"Sonhar é voar dentro de nós reinventando-nos";
"Um sonho é um mundo incorporado, luminoso ou não; uma herança intemporal";
"Um sonho é uma edição/manipulação/construção do material próprio que é a vida";
"Uma forma diferente de passar pelo rio da vida";
"Uma visão reinventada da realidade";
"Um sonho é uma imagem de uma qualquer realidade".
sexta-feira, 2 de Outubro de 2009
Filosofia com crianças e jovens
Curso: Filosofia com crianças e jovens- sua aplicação prática e transdisciplinar
Docente: Maria José Figueiroa-Rego – mariafrego@hotmail.com
Duração: 26,5 horas presenciaisCréditos: 1 UC - CCPFC / 2,5 ECTS
- Senado da UPCalendário: 7 Novembro 2009 (início) até Janeiro 2010Horário: Sábados das 11h às 13h
Prazo de inscrição: até 30 Outubro 09
quinta-feira, 1 de Outubro de 2009
Projecto Um Café - Próximos Eventos
Dia 4 de Outubro Domingo 17h00
Café Filosófico no Clube Literário do Porto
Todas as 2ª feiras de Outubro 21h30
Mês da Filosofia no E-Learning Café
13, 14, 15, 16, 20, 21, 22, 23 de Outubro 18h30-21h30
Oficinas de Filosofia Prática e Pensamento Crítico
Reitoria da Universidade do Porto
segunda-feira, 28 de Setembro de 2009
Uma Pausa para Pensar
Outubro é o Mês da Filosofia no e-learning café
Cafés Filosóficos, todas as segundas-feiras de Outubro
(dias 5, 12, 19 e 26) às 21h30 sob o mote
Uma Pausa para Pensar
Mais informações aqui e aqui.
Apareçam!
sexta-feira, 25 de Setembro de 2009
Pequeno Almoço Filosófico

- questão debatida no Pequeno Almoço Filosófico na Escola da Pedra com alunos dos 10º,11º e 12º anos.
Pequeno Almoço Filosófico na Escola da Pedra
Fase da Argumentação
Foi pedido aos alunos que elaborassem uma resposta curta (na forma de argumento) à pergunta inicial ( Somos Livres?).
Após um aceso debate onde se eliminaram algumas respostas por
1) não serem claras,
2) não serem pertinentes, ou
3) não serem um argumento
ficaram os seguintes argumentos:
“Não, pois existem leis que nos limitam.” (Gilson)
“Sim, porque temos liberdade de escolha.” (Telmo)
Fase da Conceptualização
O primeiro argumento foi definido como uma posição Legalista quanto à liberdade e o segundo como uma posição Liberalista.
Nota: Propositadamente deixou-se que os alunos procurassem chegar eles mesmos a um consenso quanto ao conceito a aplicar, exercitando dessa forma o pensamento criativo e conceptual (classificação de uma posição num conceito que a defina), por oposição à forma comum de ensinar filosofia em que os conceitos da tradição filosófica (determinismo, libertismo, compatibilismo, etc.) são servidos directamente aos alunos pelo professor.
Fase da Avaliação dos Argumentos
De seguida os autores dos argumentos ouviram as críticas dos colegas e contra-argumentaram em sua defesa.
Nesta fase notou-se, como é normal, uma excessiva vontade em defender a todo o custo a posição própria, muitas vezes sem sequer prestar atenção à crítica que lhes era feita directamente.
Este é um erro bastante comum que nasce da prioridade que damos nas nossas discussões quotidianas em vencer o outro retoricamente, por oposição ao acercamento conjunto da verdade, i.e. ao atingir com o outro uma maior compreensão sobre o assunto.
É este espírito de pesquisa conjunta que procuro transmitir nestas sessões de Filosofia Prática e Pensamento Crítico. No entanto ficou bastante claro que seriam necessárias mais algumas sessões para que esse espírito de análise crítica, desinteressada e impessoal (o espírito filosófico) realmente fosse aceite e incorporado pela turma.
No entanto muitos alunos mostraram um apurado sentido crítico assim como uma vontade e um gosto natural em discutir filosofia. Sentir os indícios do pensamento filosófico (corajoso, inconformado, arriscado) a querer despontar das cabeças de jovens como estes deixa-me sempre bastante emocionado e com vontade de continuar, no entanto o nosso tempo era limitado.
Fase da Síntese
Como síntese da sessão foi pedido aos alunos que escrevessem uma curta definição de liberdade. Estas definições seriam posteriormente aproveitadas pelo professor da cadeira de Filosofia para um aprofundamento do trabalho realizado nesta sessão.
Destaco uma definição de um aluno bastante participativo que certamente terá o condão de despoletar futuras discussões filosóficas na Escola da Pedra.
“A liberdade é a ponta do iceberg.” Gilson
Agradeço o convite à Dra. Maria João Riobom e à Dra. Mariana Cúria da Escola da Pedra, assim como os croissants no fim da sessão ao pessoal da cantina.
sábado, 19 de Setembro de 2009
Festival Filosofia Modena

Mais de 100.000 pessoas a ouvir e discutir filosofia durante um fim de semana nas cidades de Modena, Carpi e Sassuolo.
terça-feira, 15 de Setembro de 2009
Oficinas na Reitoria
Filósofos a Brincar
terça-feira, 21 de Julho de 2009
Workshop Filosofia Prática e Pensamento Crítico
Diálogo Socrático: "O que é a verdade?"
Objectivo das sessões
Encontrar uma definição de verdade
Resultado da 1ª Sessão
nota: A definição foi atingida pelo grupo, por consenso após intensa discussão, a partir de um episódio concreto aduzido por uma participante em que estaria presente o elemento "verdade":
Episódio: "Hoje de manhã estava na sala ao telefone, ouvi um barulho, aproximei-me e vi a garrafa partida no chão. Conclui que a minha filha tinha partido a garrafa."
1ª definição - "A verdade é um facto percepcionado."
2ª definição - "A verdade é um facto percepcionado e interpretado pela pessoa que o percepciona."
3ª definição . " A verdade é a interpretação de um conjunto de percepções, coerente com as crenças do sujeito."
Em seguida argumentou-se que, apesar de mais geral (e, como tal, potencialmente mais forte), a proposição "coerência com as crenças" não era a que melhor se adaptava ao exemplo inicial, pelo que trocamos "crenças" por "conhecimento" e atingimos uma definição final provisória (final pois com ela terminamos a sessão de hoje, provisória pois todos estamos certos que amanhã não durará 5 minutos).
Definição final provisória: "A verdade é a interpretação de um conjunto de percepções, coerente com o conhecimento do sujeito."
Sínteses de outras sessões de Diálogos Sócráticos.
Com miúdos:
Jovens Filósofos na Studiosus
Aula 22: "O que é a independência?" [ver ligação à Aula 21 de onde saiu o problema da independência]
Com graúdos:
10º Café Filosófico no Clube Literário do Porto
"O que é o equilíbrio?"
quinta-feira, 16 de Julho de 2009
Dança Filosófica
O objectivo principal de uma Dança Filosófica é compreender de forma consciente esses conceitos, confrontá-los e procurar dissolver os problemas que a eles poderão estar associados.
Numa Dança Filosófica busca-se o conhecimento-de-Si.
quarta-feira, 15 de Julho de 2009
2º Cocktail Filosófico

domingo, 12 de Julho de 2009
Workshop Filosofia Prática e Pensamento Crítico
21 e 22 de Julho 21h30_23h30
Diálogo Socrático: "O que é a verdade?
Inscrições - 25 € *
Transferência para NIB: 0007 0509 0001 6470 0078 7
enviar comprovativo de transferência para:
revistaumcafe@gmail.com
Tlm: 91 668 63 99
* não será cobrada inscrição a quem não tenha condições económicas para o fazer, bastando que se sinta motivado em participar. Inscrição obrigatória.
sexta-feira, 10 de Julho de 2009
1º Cocktail Filosófico

- Absolut Vodka -
Sábado 11 Julho MUUDA (Rua do Rosário, 294)
Reflexão filosófica integrada na exposição In An Absolut World.
- entrada gratuita com oferta de Cocktails Absolut Vodka
* foto de Ana Rita Cameira
sexta-feira, 3 de Julho de 2009
Jovens Filósofos na Universidade Júnior
Oficina Jovens Filósofos
29 de Junho a 24 de Julho
Universidade do Porto / Universidade Júnior
Aula 4: A visita do Reitor
Exercício: Problematizar conceitos
Estrutura do exercício
1) Fazer sair os conceitos e analisá-los brevemente
2) Listar os vários conceitos encontrados
3) Problematizar e aprofundar os conceitos
4) Debate
1) Fazer sair os conceitos e analisá-los brevemente
Breve apresentação dos alunos. A partir de uma característica pessoal revelada (ex. "ingenuidade") cada aluno foi confrontado com o que pode haver de mau nessa característica (ex. “Um ingénuo poder ser facilmente enganado”). Depois procurámos reconciliá-lo com essa característica reconhecendo o que pode haver de bom nela (ex. “Um ingénuo vê mais vezes o lado bom das coisas). *
2) Listar os vários conceitos encontrados
i) ingenuidade;
ii) individualismo;
iii) liberdade;
iv) protecção;
v) preguiça.
3) Problematizar e aprofundar os conceitos
A partir destes conceitos, e da curta conversa que permitiu aprofundá-los (“o que há de bom e o que há de mau”), os alunos (todos os alunos) colocam uma pergunta que os problematize filosoficamente (“esquecendo o particular e pensando nos conceitos na sua generalidade”).
O aluno cujas características levaram ao conceito em causa escolhe a pergunta que ver discutida.
Desta forma reequilibra-se o poder na turma. O aluno que esteve a ser observado/avaliado passa agora a observador/avaliador de toda a turma.Além disso, ao ter de prestar atenção a todas as perguntas, para escolher uma, exige-se dele uma participação e um comprometimento muito maior que dos restantes colegas.**
i)
Conceito: ingenuidade
Pergunta escolhida: “Por que é que somos ingénuos?” (André)
ii)
Conceito: individualismo
Pergunta Escolhida: “O individualismo pode afastar as pessoas?” (Margarida)
iii)
Conceito: liberdade
Pergunta Escolhida: “Para haver liberdade tem de haver independência?” (Tânia)
iv)
Conceito: protecção
Pergunta Escolhida: “Ser protector pode magoar o protegido?”
v)
Conceito: preguiça
Pergunta Escolhida: “A preguiça só tem aspectos negativos?”
4) Debate
Foi escolhida, por votação, a questão acerca da preguiça para se dar inicio ao debate, que nos primeiros 20 minutos contou com a presença do Reitor da Universidade do Porto, o Professor Doutor José Marques dos Santos, em visita à nossa actividade.
Foi precisamente o nosso Reitor quem levou a questão da preguiça para a questão da liberdade:
“A preguiça de uns pode colidir com a liberdade dos outros.” (Reitor, 62 anos)
A partir daqui fomos rápidamente conduzidos aos conceitos de Liberdade e Independência da terceira pergunta.
“Ao sermos preguiçosos estamos a exercer a nossa liberdade, por isso é que tanta gente da nossa idade é preguiçosa. Porque quer ser livre.” (Francisca, 13 anos)
A partir desta resposta o Sr. Reitor levantou a questão de sabermos se
“a sociedade deve pagar pela preguiça dos outros?”
Não podia ter havido melhor provocação para estas mentes inquietas. Alheios à turba de máquinas fotográficas e altas individualidades que enchiam agora a sala (além do Reitor, professores universitários e dirigentes da Universidade Júnior), os dedos no ar a pedir a palavra sucediam-se uns atrás dos outros denotando uma ânsia de falar comum a quem tem uma ideia “quentinha” pronta a ser revelada ao mundo.
Apesar de a hipótese com que agora se defrontavam ter vindo de cima (do lugar hierárquico mais elevado da Universidade), os Jovens Filósofos demonstraram não se intimidar com argumentos de autoridade. Já tinham conquistado o seu espaço de liberdade e agora queriam ocupá-lo de direito próprio.
Percebendo uma clara posição do Sr. Reitor por trás de questão colocada o Pedro, de 12 anos foi o primeiro a dizer o que pensava:
“Então os outros são um limite à nossa liberdade.” (Pedro)
“Mas sem os outros, sozinhos numa ilha, também não seríamos livres. Não teríamos tudo aquilo que agora temos por causa dos outros.” (Joana, 13 anos)
“Não há ninguém totalmente livre. Somos sempre dependentes dos outros.” (André, 13 anos)
Pergunta – “Liberdade e independência estão então interligados?”
“Não. Podemos ser livres sem ser independentes. Podemos ser dependentes politicamente ou socialmente, e livres mentalmente."
Pergunta – “Que diferentes tipos de liberdade existem?”
“Liberdade física, liberdade social, liberdade mental…” (Joana)
“Mas a mental é mais importante.” (Francisca)
Ainda antes de esgotarmos a análise dos novos conceitos que entretanto surgiram e que nos ajudavam a clarificar o conceito de liberdade, o Reitor levantou mais uma questão que nos levou por outras linhas de investigação. Era agora bem claro para todos os presentes que este era o sítio ideal para se colocarem as mais inquietantes dúvidas filosófica.
“Alguém que rouba por doença (um cleptomaníaco), deve ser acusado de crime? Deve ser tratado como um criminoso?” (Reitor)
“Não. Se for uma doença deve ser tratado.” (Pedro)
“Mas como é que podemos saber se uma pessoa é doente?” (Francisca)
[aproveitando a deixa do Reitor quis voltar à questão inicial da preguiça]
Pergunta - “Alguém que é preguiçoso mas não consegue deixar de o ser, pode ser criticado?”
“Quem já conseguiu deixar de ser preguiçoso pode criticar o preguiçoso.” (Adriano, 12 anos)
Pergunta – “Então quem consegue correr os 100 metros em 10 segundos pode criticar quem não consegue?”
“Não pode criticar quem não consegue, mas pode criticar quem nem sequer tenta.”
“Todos nós somos livres para tentar, o que não quer dizer que se consiga sempre.” (Jéssica)
Pergunta – “Acham que já são capazes de dizer o que é ser livre?”
“Ser livre é poder fazer aquilo que queremos.” (Carolina)
“Não concordo com a Carolina. Eu posso querer ir à lua e vir em dois segundos e não consigo. Mas não é por isso que deixo de ser livre.” (Joana)
Pergunta – “Como é que podemos melhorar a definição da Carolina?”
“Não temos que poder fazer tudo o quer queremos para sermos livres. Isso é impossível.” (André)
“Ser livre é poder fazer tudo aquilo que queremos, e que é possível fazer.” (Francisca) ***
“Se calhar é impossível ser livre.” (Jéssica)
Apesar das definições de liberdade a que chegamos nesta sessão serem bastante satisfatórias, não há como sentir a liberdade na pele para compreender o que é a liberdade.
A prática da filosofia revelou-se hoje, sem dúvida alguma, um passo essencial na conquista dessa liberdade (pelo menos em alguns sentidos da palavra liberdade).
Foi com imensa satisfação que vi o Reitor da Universidade do Porto a descer do seu palanque (mais imaginário que real, leia-se) e a debater humildemente ideias com os Jovens Filósofos, todos eles com idade para serem seus netos. Mas foi cheio de orgulho que vi os Jovens Filósofos da Universidade Júnior a elevarem-se à altura dos Grande Filósofos e a trocarem ideias com o nosso Reitor.
A sessão terminou com uma troca de ideias sobre quem seria interessante convidar para um debate sobre a liberdade.
“Seria interesante ouvir pessoas de outras culturas.” (Jéssica)
“Sim, especialmente pessoas de países onde não houvesse liberdade.” (Francisca)
“Gostava de convidar o Saddam, o Hitler e o Salazar.” (André)****
“Também gostava de ouvir a Madre Teresa de Calcutá. Saber até que ponto ela, ao ajudar os outros, não perdeu muita da sua liberdade.” (Francisca)
“Também seria interessante convidar uma pessoa que estivesse presa.”
* Muito Importante: Este exercício tem de ser efectuado com muito tacto para não deixarmos que o aluno se sinta "encurralado" entra a sua característica e os juízos de valor da turma e do professor. Deve-se deixar que seja ele a pensar por si no bom e no mau das suas características. É comum sentir-se alguma solidariedade dos colegas principalmente quando se pergunta pelas boas características.
*** Nota: É encontrado o conceito de possibilidade que nos ajudará a compreender melhor o conceito de liberdade.
**** Nota: Cinco destes alunos eram, curiosamente, de Santa Comba Dão.
quarta-feira, 1 de Julho de 2009
Jovens Filósofos na Univ.Júnior
29 de Junho a 24 de Julho
Universidade do Porto / Universidade Júnior
Aula 3 (13 alunos)
Procurar uma definição: O que é influenciar?
Após um breve debate em que a turma se apresentou procurámos, através de um pequeno jogo, encontrar uma característica definidora de cada um dos alunos. O objectivo deste exercício era que a partir destas características particulares chegássemos a conceitos filosóficos mais gerais com o intuito de se escolher um deles para se problematizar e definir.
Em seguida, para cada uma das características pessoais encontradas efectuava-se uma ronda de perguntas filosóficas (“não particulares, mas gerais e abstractas”).
Depois de ouvir todas as perguntas (forma de trabalhar a concentração de cada um) o aluno caracterizado escolhia uma das perguntas.
1 - Característica: Influenciadora_Pergunta: “O que é influenciar?”
2 – Característica: Bonita por dentro_Pergunta: “Quem define a Beleza?”
3 – Característica: Generosa_Pergunta: “Até que nível se pode ser generosa?”
4 – Característica: Influenciável_Pergunta: “Quando é que é bom ser influenciado?”
5 – Característica: Expressivo_Pergunta: “Como é que se faz arte?”
Por votação escolheu-se a pergunta 1) para iniciar o debate filosófico.
“O que é influenciar?”
a) Hipóteses para pensar
persuadir;
convencer;
obrigar;
criar um desejo;
criar uma vontade;
convencer inconscientemente;
ser activo
…
b) Escolha de um Conceito para investigar: persuasão
Pergunta – “Influenciar é persuadir?”
Ruben (13 anos) – “Não. Posso querer usar um boné porque vi algué que não conheço na rua com um igual. Essa pessoa influenciou-me sem me persuadir.”
Nesta altura compreendemos que precisávamos de aprofundar a nossa noção de influência. Para isso procuraram-se novos conceitos para nos ajudarem
c) Novos conceitos encontrados
Vasco (13 anos) – “Há dois tipos de influência. A persuasão, que é directa e consciente e outra que é indirecta e inconsciente.”
Pergunta – “Como podemos chamar a esse segundo tipo de influência?”
André (13 anos) – “ Inadvertividade” (conceito encontrado para clarificar a questão da influência indirecta e inconsciente).
O grupo chegou então à conclusão que existem dois tipos de influência.
1) A influência persuasiva, que é directa e consciente.
2) A influência inadvertida, que é indirecta e inconsciente.
Pergunta – “Quem me influencia sem saber que me influencia está inconsciente?”
Discutimos os conceitos de consciência, inconsciência e subconsciência e procuramos defini-los. O grupo escolheu consensualmente o novo conceito “não-consciente” para substituir “inconsciente” na definição de influência inadvertida.
Vasco – “Quem nos influencia inadvertidamente não está inconsciente, só não está consciente que está a influenciar”
André – “Está consciente, só não tem é consciência de que me influencia. Não tem intenção”
Por sugestão do André mudámos os conceitos de "consciência" e de "não-consciente" para intenção e não-intenção.
Pergunta – “Que conceito define melhor a influência persuasiva: a consciência ou a intencionalidade?”
Grupo – “Intencionalidade”.
Pergunta – “Porquê?”
Rui (15 anos) – “Consciência é mais geral. Intencionalidade é um tipo de consciência.”
Por esta altura já íamos com quase 4 horas de discussão, mas nenhum dos alunos mostrava sinais de querer parar. Este tipo de resistência às horas seria completamente impossível numa aula comum onde o que se pede dos alunos é que assimilem passivamente os conteúdos dados pelo professor. Numa sessão de Filosofia Prática, desde o primeiro minuto, os alunos (todos os alunos) são incentivados a participar e a pensar activamente sobre os vários problemas que vão surgindo. Os próprios problemas surgem de dentro do grupo, não sendo impostos de fora por um professor, manual ou programa, o que ajuda certamente a este comprometimento intelectual geral.
Para terminar a sessão pediu-se aos alunos que procurassem responder à pergunta inicial,
"O que é influenciar?"
Entre as 13 definições destacou-se esta:
Fábio – “Influenciar é conseguir que alguém queira algo. Há uma forma directa e intencional de influenciar (influência persuasiva), e uma forma indirecta e não intencional de influenciar (influência inadvertida).”
No fim da sessão ainda houve vontade para aprofundarmos um pouco o conceito de consciência ("quando fazemos filosofia"). de subconsciência ("quando jogamos playstation de forma quase automática") e de inconsciência ("quando estamos em coma").
Pergunta – “E os computadores, em que estado estão?”
(pergunta surgida a partir da hipótese de os telemóveis falarem e os computadores pensarem).
Vasco – “Os computadores estão acima da inconsciência, pois fazem coisas e interagem com as pessoas, mas abaixo da subconsciência, pois não sabem que fazem coisas.
Pergunta – “Então, em que estado estão?”
(procura de novos conceitos que iluminem a questão)
Joana (12 anos) – “Estão num estado de sub-subconsciência.”
Vasco – “Estão num estado de intra-subconsciência.”
A sessão terminou com o esboçar de uma outra discussão sobre a necessidade de se inventar conceitos quando pensamos nos limites da linguagem e do pensamento, mas a hora de fecho da cantina aproximava-se e os bravos Jovens Filósofos não podiam ficar sem almoço.
Foi desta forma um pouco abrupta, e a deixar água na boca para todas as questões que ficaram por responder, que terminou esta sessão memorável de Filosofia Prática, uma das melhores que tive até hoje.
Objectivos da Sessão
- Encontrar problemas filosóficos gerais em assuntos concretos – Princípio Anagógico (passar de um pensamento particular ao padrão de pensamento de cada um.
- Avançar na investigação de um assunto através de novos conceitos que o clarifiquem, aprofundem e expliquem - Conceitos Operativos
- Compreender o carácter discursivo da filosofia (devido à especificidade dos seus objectos de estudo – arte, generosidade, vontade, beleza, etc.) e o papel dos conceitos enquanto instrumentos primordiais da investigação filosófica. (busca de definições, análise de problemas, etc.)
- Trabalhar as definições e tomar um primeiro contacto com as condições necessárias e suficientes de uma definição bem sucedida.
(para x é necessário que y; para x é suficiente que y).
terça-feira, 30 de Junho de 2009
Jovens Filósofos na Universidade Júnior
Oficina Jovens Filósofos
29 de Julho a 24 de Julho
Universidade do Porto / Universidade Júnior
Aula 2 (14 alunos)
Graças a esta iniciativa da Universidade do Porto (Universidade Júnior) até ao fim do mês de Julho vou voltar a ter a oportunidade de fazer filosofia com cerca de 300 alunos, ao ritmo de uma turma de 15 alunos por dia.
Aqui estão algumas notas que tirei da sessão de hoje:
Exercício: "Perguntar-se mutuamente"
Descrição: Sobre uma pergunta inicial (Somos livres?; O que nos leva a agir?, etc.) escolhia-se uma resposta/hipótese de um dos alunos. A essa resposta todos os alunos faziam uma nova pergunta. O autor da resposta escolhia uma das perguntas ("aquela que considerasse mais pertinente") e procurava responder. A partir daqui iniciava-se o debate.
Pergunta inicial: "Somos livres?
(diálogo entre o Daniel de 13 anos, o Gonçalo de 12 e a Sofia de 12)
- "Não sou livre porque mandam em mim." (Daniel)
- "Tens capacidade para ser livre?"(Gonçalo)
- "Sim, quando arranjar um emprego serei livre." (Daniel)
- "Mesmo nessa altura não seremos livres. Tornamo-nos independentes*, mas nunca somos totalmente livres." (Sofia)
*Aqui a Sofia recorreu (sem saber) a uma técnica de investigação filosófica bastante complexa, introduziu na discussão um conceito novo (o conceito de independência) que permitiu analisar melhor as diferentes nuances da questão da liberdade
Outras intervenções:
(excertos)
- "Sim, somos livres porque podemos fazer o que nos apetece apesar das consequências" (Simão, 12 anos)
- "Sim, porque podemos sempre pensar que somos livres." (Diogo, 13 anos)
- "Não basta pensar para se ser livre. Não sou rica porque penso que sou rica.* (Rita, 13 anos)
* Recurso à analogia como instrumento de investigação filosófica. Ao mesmo tempo está a testar os limites da tese do Diogo.
- "Não, as regras sociais e legais impedem-nos de fazer o que queremos." (Vitor Hugo, 13 anos)
- "Não somos livres. Nós mesmos somos um obstáculo à nossa liberdade." (João, 12 anos)
- "Não somos livres porque não conseguimos fazer tudo o que queremos." (Rafael, 13 anos)
Segunda Questão: "Somos livres de dizer o que queremos?"
(diálogo entre o Diogo, a Rita e o Joaquim)
- "Não, há ideias que não devemos expressar em público." (Diogo)
- "Mas, se exprimimos as ideias positivas, por que é que não podemos exprimir as negativas?" (Rita)
- "Há certas coisas que não devemos dizer porque podemos magoar os outros, e podemos magoar-nos a nós também, perdendo amigos." (Diogo)
- "Mas mesmo assim podes dizer o que quiseres, por isso és livre para dizer o que pensas. Depois sofres é as consequências..." (Joaquim, 12 anos)
Terceira Questão: "O que nos leva a agir?"
(excertos)
- "As opiniões dos outros não me influenciam." (Rita A. 12 anos)
- "Então como é que és influenciada?" (Gonçalo)
Quarta Questão: "Por quê agir bem?"
(excertos)
- "Não ajudo os outros para ser recompensada." (Rita A.)
- "Não vês motivos para seres recompensada." (Rafael)
Objectivos deste exercício:
aprofundar perguntas filosóficas;
elaborar ideias;
problematizar;
ouvir os outros;
estabelecer relações lógicas entre perguntas e respostas;
perceber a sua pertinência;
analisar e descobrir conceitos novos;
sintetizar os resultados obtidos.
E o mês ainda está no início...
Workshop de Filosofia Prática e Pensamento Crítico
Local: Clube Literário do PortoData: 7, 8 e 9 de Julho
Horário: 21h30 23h30
Inscrições (limite 20 pessoas)
40 €
Transferir para NIB: 0007 0509 0001 6470 0078 7
(por favor enviar comprovativo de transferência para o mail em baixo)
revistaumcafe@gmail.com
Tlm: 91 668 63 99
Apresentação do Workshop
Aplicação de técnicas de Pensamento Crítico a discussões filosóficas reais
A Filosofia Prática e o Pensamento Crítico são duas áreas distintas mas complementares que têm como objectivo comum a prática e o aperfeiçoamento das nossas capacidades cognitivas e argumentativas.
O Pensamento Crítico é uma área transversal a todas as disciplinas (Português, História, Ciências Naturais, etc.) onde se cultiva a análise e avaliação cuidada de raciocínios e argumentos.
Na Filosofia Prática a ênfase é colocada na procura pessoal, activa e crítica de respostas aos problemas filosóficos.
Neste Workshop de Filosofia Prática e Pensamento Crítico serão partilhadas uma série de técnicas, conceitos e instrumentos cognitivos, lógicos e argumentativos da área do Pensamento Crítico, aplicando-os a discussões sobre diversos temas filosóficos (Filosofia Prática).
O prazer do pensamento filosófico
Da mesma forma que um desportista, um filósofo tirará maior prazer e proveito enquanto praticante que enquanto observador. Nesse sentido, este Workshop tem como objectivo principal fazer filosofia e não simplesmente falar de filosofia.
Procuraremos proporcionar o prazer do pensamento filosófico aos participantes que, com essa prática exercitarão também outras virtudes filosóficas como a tolerância, o saber ouvir(-se), o espírito crítico e a argumentação.
Aventure-se a pensar connosco!
Apresentação do Formador
Tomás Magalhães Carneiro é licenciado e pós-graduado em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
É investigador no Instituto de Filosofia da mesma faculdade nos grupos de investigação de Filosofia com Crianças e Jovens, Mind Language and Action Group e Filosofia na Saúde.
Prepara uma tese de mestrado em Filosofia Prática e Pensamento Crítico.
14º Café Filosófico
Foto: José Rui M. Correira- Solidão
- Conforto (na aridez)
- (Intenção de) Comunicação
- Sossego
- Depressão
- Partilha
Percepção Pura dos elementos do quadro:
- 4 pessoas
- Noite
- Anos 40 (pela vestimenta)
- Rua comercial
- Luz
- Esquina
- 4 janelas
- 1 vitrine
- Passagem
- Vulto (na janela)
- Triângulos (forma do bar / personagens entre elas)
- Posição (curiosa) do empregado
- Porta aberta
Análise Pura/Relação entre o que "vemos" e o que "sentimos":
- Contraste entre a rua comercial vazia à noite (solidão) vs a mesma durante o dia
- Cápsula no meio da cidade (com ambiente de ordem e minimalismo)
- Montra de estereótipos
- Hora tardia (em que «sobraram estes»)
- Há comunicação sem haver conversação
- Ambiguidade no quadro: tudo muito limpo (café) a ao mesmo tempo escuro e decadente (exterior)
Conceitos subjacentes ao quadro:
- Estranheza
- (Contradição)
- Contraste (mais indicado que contradição que implica um juízo de valor)
* contraste colorido entre as 4 personagens (importância das cores das roupas de cada um)
* contraste sombra/luz
* contraste harmonia/desarmonia
* contraste abandono/cuidado
Que simboliza?
- Desistência
- Monotonia
- Cinzentismo
- Fuga
- Contraste
- Luz
- Paz
- Resignação
- Ponto de encontro
- Intimismo
Segundo quadro: A Dança da Vida, de Edvard Munch
Sentimentos/Sensações Transmitidas:
- Desilusão
- Alegria
- Ridículo
- Tristeza
- Depressão
- Euforia
- Envolvência
- Prazer
- Movimento
- Frieza
- Dor
- Desespero
- Abandono
Percepção Pura dos elementos do quadro:
- Noite
- Lua cheia
- 3 mulheres
- 3 pares
- Festa
- Música
- Ar livre
- Praia
- Relva
- Planta/Flor
- Reflexo da lua
- 1 único vestido vermelho
- Rostos sem expressão
- Casais em movimento e mulheres paradas
- Pose assustadora da mulher de negro
- Figura triste do casal central
- 2 planos no quadro
- 3 fases da vida de uma pessoa (se for a mesma pessoa representada) ou de 3 mulheres
- 1 ciclo da vida
* fertilidade/gravidez: figura feminina de branco
* tentação: figura central de vermelho
* viuvez: figura de negro
Comparação conceptual dos 2 quadros:
- 3 idades
- Fases da vida
- Reforço
- Frieza
- Tentação
- Contraste
Conceitos Finais
* Tentação (1 votação)
* Busca (4 votações)
* Encenação (6 votações)
Formulação de um título comum para os 2 quadros:
"Relação falhada"
"Contrastes"
"Falhanços"
"Vida inevitável"
"Teatro da vida"
"Faz de conta"
"A vida humana"
"A luz"
"Um café pouco filosófico" (sugerido pela irmã mais nova do moderador)
sexta-feira, 26 de Junho de 2009
13º Café Filosófico: a análise de Ricardo Brito

quarta-feira, 24 de Junho de 2009
Próximos Cafés Filosóficos

Dia 25 de Junho às 21h30 n´A Cadeira de Van Gogh
Dia 28 de Junho às 17h00 no Clube Literário do Porto
Conto com vocês!
terça-feira, 9 de Junho de 2009
Workshop de Filosofia Prática e Pensamento Crítico
A Filosofia Prática e o Pensamento Crítico são duas áreas distintas mas complementares que têm como objectivo comum a prática e o aperfeiçoamento das nossas capacidades cognitivas e argumentativas.
O Pensamento Crítico é uma área transversal a todas as disciplinas (Português, História, Ciências Naturais, etc.) onde se cultiva a análise e avaliação cuidada de raciocínios e argumentos.
Na Filosofia Prática a ênfase é colocada na procura pessoal, activa e crítica de respostas aos problemas filosóficos.
Neste Worshop de Filosofia Prática e Pensamento Crítico serão partilhadas uma série de técnicas, conceitos e instrumentos cognitivos, lógicos e argumentativos da área do Pensamento Crítico, aplicando-os a discussões (Filosofia Prática) sobre diversos temas filosóficos: verdade, conhecimento, bem e mal, arte, etc.
O prazer do pensamento filosófico
Da mesma forma que um desportista, um filósofo tirará maior prazer e proveito enquanto praticante que enquanto observador. Nesse sentido, este Workshop tem como objectivo principal fazer filosofia e não simplesmente falar de filosofia.
Procuraremos proporcionar o prazer do pensamento filosófico aos participantes que, com essa prática exercitarão também outras virtudes filosóficas como a tolerância, o saber ouvir(-se), o espírito crítico e a argumentação.
Aventure-se a pensar connosco!
segunda-feira, 1 de Junho de 2009
Cafés Filosóficos 11 e 12

Objectivos Gerais das Sessões de Filosofia Prática
Nestas sessões procuramos utilizar toda a gama de ferramentas cognitivas, lógicas e argumentativas que um filósofo deve ter ao seu dispor ao abordar um qualquer problema filosófico:
- analisar e avaliar criticamente os argumentos propostos;
- resumir, clarificar e sintetizar posições;
- pedir objecções;
- pedir exemplos e analogias que ajudem a compreender os problemas;
- explicar e pedir explicações;
- conceptualizar argumentos e ideias;
- problematizar novos problemas a partir de problemas e argumentos iniciais
Cafés Filosóficos 11 e 12 – “A verdade existe?”
Introdução e convite
Nestes Cafés Filosóficos iniciou-se uma pesquisa em torno da questão da verdade que ainda se deverá prolongar pelas próximas sessões:
“A verdade existe?”
Uma das coisas que estas sessões mostram é que um grupo de pessoas sem qualquer preparação filosófica académica, quando orientado segundo um método crítico de investigação, é capaz de atingir resultados filosóficos bastante satisfatórios.
Mas tão importante quanto esses resultados, são os momentos de intenso prazer e fruição intelectual que só uma discussão séria, cuidada e bem-educada é capaz de nos proporcionar.
Um prazer bastante diferente de todos aqueles que nos possam chegar via os sentidos, e que advém da contemplação das grandes questões filosóficas e da possibilidade de as defrontar da forma mais adequada: fazendo filosofia.
Esses “momentos filosóficos” só são verdadeiramente sentidos por quem os vivencia e dificilmente podem ser descritos em palavras.
Desta forma, um pouco enviezada, fica o convite para que se juntem a nós nos próximos Cafés Filosóficos.
O Método Filosófico das Oficinas de Filosofia Prática
Nestas Oficinas procuraremos seguir os passos que, na nossa opinião, devem orientar qualquer investigação filosófica séria. São eles:
1) Problematização – A filosofia surge da dúvida perante um determinado problema. Como tal para iniciarmos qualquer investigação em filosofia é necessário que se comece por formular um enunciado, na forma de uma pergunta, em que esse problema esteja presente.
2) Respostas/Hipóteses – Uma vez perante um qualquer problema filosófico importa avançar com um argumento que o procure resolver. Nestas sessões de Filosofia Prática chamamos “hipóteses” e não “respostas” aos argumentos aduzidos pelos participantes por forma a que estes sintam alguma distância e desprendimento em relação a eles. A ideia que queremos transmitir é que não são as suas opiniões pessoais que estão em jogo, mas apenas “hipóteses de trabalho” que cada um “arrisca” e que estão à disposição de todos para serem criticadas.
3) Análise Crítica das Hipóteses – ao analisar uma hipótese/argumento queremos perceber a sua essência. Em primeiro lugar procurar saber se é na verdade um argumento, ou seja, se merece sequer ser críticado. Em seguida conhecer a sua estrutura e os seus elementos (razões, analogias, pressupostos, etc.) verificando, depois, se é claro (caso contrário pede-se ao autor para o clarificar) e pertinente (se responde à pergunta). A este movimento de análise crítica dá-se o nome de Crítica Interna.
4) Conceptualização – Este movimento crítico consiste em perceber:
i) quais os conceitos filosóficos fundamentais pressupostos pelo argumento;
ii) que outros conceitos é que podem estar implicados no argumento;
iii) que conceitos operativos é que nos podem ajudar a aprofundar a nossa investigação.
Por exemplo, perante a hipótese “O conhecimento é tudo aquilo que percepcionamos”, podemos sugerir o conceito de consciência por forma a aprofundar e testar a teoria da percepção defendida pelo autor.
O objectivo deste movimento crítico é procurar perceber o padrão de pensamento por trás
dos raciocínios de cada um.
5) Avaliação Crítica das Hipótese – Depois de analisarmos e percebermos a que conceitos os argumentos estão ligados (ou de que conceitos dependem) podemos iniciar a sua avaliação crítica:
i) Concordamos com o argumento?
ii) Aceitamos os seus pressupostos fundamentais (subjectivismo; relativismo, idealismo, etc.)?
iii) Que razões temos para o rejeitar?
A este movimento crítico dá-se o nome de Crítica Externa.
6) Nova Problematização – Agora é chegada a altura de pôr à prova a hipótese em questão, propondo um ronda de perguntas que testem os seus pressupostos e as suas razões. Neste ponto voltamos ao passo 1) e daí prosseguimos a nossa investigação filosófica até que o tempo se esgote (mais provável) ou até atingirmos uma resposta satisfatória (menos provável): “a filosofia é um caminho interminável.”
Resumo do 11º Café Filosófico
1) Problematização
“A verdade existe?”
2) Hipóteses
2) a) “Sim, a verdade existe mas não é universal. Cabe a cada um encontrar a sua.”
3) a) Análise Crítica
Apesar de não ter encontrado qualquer problema de clareza ou pertinência nesta hipótese, o grupo concluiu que não é um argumento, uma vez que não apresenta qualquer justificação (razão ou prova) para a asserção “Sim, a verdade existe”.
Como a única forma que temos para averiguar a verdade de uma asserção é examinando as razões ou provas aduzidas em sua defesa, neste caso não temos qualquer maneira de o fazer. O mesmo se passa quanto à segunda asserção, proposta ainda na primeira frase, de que “apesar de existir a verdade não é universal”.
Quanto à segunda frase da resposta, “Cabe a cada um encontrar a sua”, pareceu-nos mais uma indicação ou um conselho que uma proposição (um juízo susceptível de ser considerado verdadeiro ou falso), e só proposições podem ser consideradas razões de argumentos.
2) b) “A verdade existe mas depende do ponto de onde é observada.”
3) b) Análise Crítica
Os participantes consideraram esta resposta pouco clara pois não se percebe muito bem como é que “A verdade existe mas depende”. Parece existir alguma ambiguidade na conjunção mas a seguir a uma afirmação de existência e alguma vagueza e indecisão própria do verbo depender. Quer isto dizer que “a verdade deixa de existir em algum ponto?”; ou que “a verdade depende do observador?” Além disso falta argumentar em favor da existência da verdade. Mais uma vez é apresentada uma mera asserção, não justificada por qualquer razão ou prova.
A segunda asserção, “(a verdade) depende do ponto de onde é observada” também precisa de ser provada.
Como é característico do verbo depender, esta segunda asserção deixa-nos num impasse argumentativo sem que nos seja dada qualquer razão para aprofundarmos qualquer um dos “pontos de vista” dos quais a verdade depende. Mais uma vez estamos perante uma asserção injustificada, com a qual não nos temos de comprometer por quaisquer motivos filosóficos válidos.
2) c) “É reconfortante acreditar que a verdade existe, que é praticada.”
3) c) Análise Crítica
Esta resposta nitidamente exprime um desejo ou uma necessidade mais que uma razão válida ou uma prova em defesa da sua crença na existência da verdade. É apenas uma manifestação de wishfull thinking, ou seja, a crença de que porque seria bom que uma coisa fosse verdade, então tem de ser realmente verdade. Apesar de ser uma forma errada de raciocínio é um erro bastante comum.
2) d) “A verdade não existe pois é um conceito.”
3) d) Análise Crítica
Esta hipótese, é clara, pertinente e é um argumento (apresenta uma razão em defesa da sua conclusão). É, porém, um argumento cuja validez depende da seguinte premissa escondida (entimema): “Os conceitos não existem.”
Apesar de ser uma hipótese de pesquisa interessante (a de saber o que é aqui entendido pelo conceito de existência) e que nos poderia deitar alguma luz sobre a questão da existência da verdade, o grupo decidiu não a aceitar.
2) e) “A verdade existe porque é um elemento pressuposto pela linguagem, isto é, serve o discurso como balanceador do julgamento.”
3) e) Análise Crítica
Esta foi a hipótese que passou o crivo da Crítica Interna no 11º Café Filosófico, e foi aquela que decidimos aprofundar no restante da sessão.
Antes, porém, foram levantadas algumas dúvidas quanto à sua pertinência, uma vez que a ideia de que a verdade é algo pressuposto pela linguagem parece ter algo em comum com a resposta c). Ou seja, parece reflectir uma necessidade que a linguagem terá da existência verdade, o que não prova de forma alguma (antes pressupõe) que a verdade exista. O argumento parece ser um argumento circular, em que o que se quer provar (a conclusão) já está presente na prova (as razões). Este tipo de argumentos, apesar de lógicamente válido não é de todo informativo. Seria necessário aduzir uma razão independente para acreditar na existência da verdade pressuposta pela linguagem.
No entanto, para encontrar essa razão independente teríamos de aprofundar um pouco melhor a concepção de linguagem defendida pelo autor do argumento e, como tal esta crítica à hipotese e) não foi aceite (ou antes foi deixada em suspenso) pelo grupo por forma a avançarmos para o passo seguinte da nossa investigação filosófica.
4) Conceptualização
Esta hipótese e) introduziu na discussão um conceito novo a partir do qual provou-se ser possível desbravar novos terrenos em torno da noção de verdade: o conceito de linguagem.
Por “desbravar novos terrenos” entenda-se a exploração de novos sentidos de um problema, a articulação de novas hipóteses e ideias, a clarificação de posições, etc. Ou, muito sucintamente, o desenvolvimento de um problema possibilitado pela inserção na discussão filosófica de um novo conceito (conceito operacional).
Neste caso o conceito operacional que nos ajudou a levantar novos problemas acerca do problema da existência da verdade foi o conceito de linguagem (ver ponto 6, em baixo).
5) Avaliação Crítica da Hipótese
Seguiu-se uma breve discussão acerca das implicações e consequências que a hipótese e) acarreta. Desta discussão pretendia-se que saísse uma nova pergunta que nos ajudásse explorar um pouco mais essa mesma hipótese. Após algumas sugestões chegou-se a uma questão/síntese a qual procuraremos atacar durante as próximas sessões:
6) Nova Problematização
“Pode existir verdade sem linguagem?”
Outras perguntas sugeridas pelo conceito (operativo) de linguagem:
- “Há verdade sem linguagem?”
- “A linguagem revela ou esconde a verdade?”
- “Cada linguagem tem a sua verdade?”
- “Conhecemos verdades reais ou conceitos criados?”
- “Somos descobridores ou criadores de verdades?”
- “Qual o critério de verdade numa linguagem?”
Resumo do 12º Café Filosófico
Nesta sessão voltou a pedir-se argumentos (hipóteses) que procurassem responder à pergunta inicial “A verdade existe?”. (Passo 1 - Problematização)
Foram avançadas por este novo grupo as seguintes hipóteses:
(Passo 2 – Hipóteses)
f) "Sim, porque podemos reconhecê-la na nossa mente."
g) "Não, porque apenas existem visões do mundo."
h) "Sim, porque a negação da frase “a verdade existe” é uma impossibilidade lógica."
(Passo 3 – Análise Crítica)
Mais uma vez o grupo submeteu as hipóteses à Crítica Interna, tendo apenas sobrevivido a hipótese h).
Em seguida procurou-se o conceito fundamental subjacente a este argumento e, por consenso, encontrou-se o conceito de lógica.
Tínhamos neste momento dois argumentos que passaram as sucessivas Análises Críticas de duas sessões de Café Filosófico e que procuravam responder à pergunta “A verdade existe?” Eram eles:
e) “Sim, a verdade existe porque é um elemento pressuposto pela linguagem, isto é, serve o discurso como balanceador do julgamento.”
e
h) Sim, porque a negação da frase “a verdade existe” é uma impossibilidade lógica.
Ambas respondem afirmativamente à questão inicial, mas fazem-no apresentando razões diferentes.
Por esta altura, e para se perceber até que ponto eram dois argumentos diferentes, procurou-se descobrir os conceitos fundamentais dos quais cada um depende.
Na sessão anterior o grupo descobriu o conceito de linguagem por trás do argumento e), porém nesta sessão foram sugeridos outros conceitos que, segundo este novo grupo, melhor descreveriam uma posição como a defendida por e):
Adequação;
Lógica;
Material;
Subjectivo;
Relativo.
O grupo hesitou a dada altura entre o conceito de subjectivo proposto pela Lurdes e o de relativo proposto pela Chantal. Por votação escolheu-se que o conceito de relativo seria o que melhor descrevia o argumento e).
Mais consensual foi a escolha do conceito subjacente ao argumento h): lógica
Chegados quase ao fim da sessão tínhamos agora dois pares de Argumentos/Conceitos que procuraremos aprofundar nas próximas sessões:
e) “A verdade existe porque é um elemento pressuposto pela linguagem, isto é, serve o discurso como balanceador do julgamento.” /Conceito de Relativo
e
h) "Sim, porque a negação da frase “a verdade existe” é uma impossibilidade lógica." / Conceito de Lógica
Escolhemos aprofundar o par argumento/conceito e) numa próxima sessão e, em jeito de síntese, propôs-se uma nova questão que o problematizasse.
Escolheu-se a proposta do João:
“Em que circunstância a verdade aparece na linguagem?"
Ponto da situação
Ao fim de duas sessões de Filosofia Prática (no contexto de dois Cafés Filosóficos) temos então dois argumentos que procuram responder à pergunta inicial “A verdade existe?”
São eles:
e) “A verdade existe porque é um elemento pressuposto pela linguagem, isto é, serve o discurso como balanceador do julgamento.”
e
h) A verdade existe, porque a negação da frase “a verdade existe” é uma impossibilidade lógica.
Vimos também que o primeiro argumento parece defender que a verdade existe mas é relativa (falta perceber a que é que é relativa a verdade: à linguagem?; ao sujeito linguístico?),
Por consenso decidiu-se aprofundar o primeiro argumento e foram procurou-se duas questões que o problematizam.
Assim temos a seguinte agenda de discussão que importa aprofundar nas próximas sessões:
Pergunta inicial - "A verdade existe?"
Argumento_1 - "Sim, é um elemento pressuposto pela linguagem, isto é, serve o discurso como balanceador do julgamento."
Nova problematização_1 - “Pode existir verdade sem linguagem?”
Nova problematização_2 - “Em que circunstância a verdade aparece na linguagem?”
Síntese do moderador
Mesmo que as respostas à pergunta inicial e aos novos problemas que foram surgindo durante a discussão estejam ainda muito longe de serem alcançadas, este método de investigação em Filosofia Prática (Passos 1 a 6) permitiu que um grupo de pessoas inteligentes mas sem formação filosófica académica, identificasse e eliminasse uma série de falsos argumentos iniciais e caminhasse no sentido de aperfeiçoar os argumentos que iam sendo propostos, encontrando e criticando as suas razões, pressupostos e conceitos fundamentais e aprofundando assim as suas capacidades de análise e avaliação crítica de argumentos.
A ideia básica que anima estas sessões de Filosofia Prática é a de possibilitar aos participantes a contemplação e o confronto com questões filosóficas intemporais.
O que torna estas sessões tão interessantes (e viciantes) é a forma como essa contemplação e confronto é conseguida. Isto é, os participantes não chegam a esses problemas através da leitura dos pensamentos de outros pensadores nas suas obras ou em Histórias da Filosofia, mas através do fomento e exercício do seu próprio pensamento crítico no seio de um verdadeiro grupo informal de investigação.
Os problemas e as (tentativas de) respostas a que se chega nestas sessões são, verdadeiramente, o resultado do esforço concertado de dezenas de cabeças pensantes comprometidas a investigar quaisquer problemas ou temas que possam surgir de forma séria, responsável e crítica.
Numa palavra, comprometidas a pensar filosoficamente.
Sínteses de alguns participantes do 12º Café Filosófico
“Esta sessão obrigou-nos a sair da nossa linha de raciocínio habitual e a seguir as linhas de raciocínio de outras pessoas. Aí podemos descobrir coisas surpreendentes.” (Lurdes)
“Obriga-nos a uma maior concentração e comprometimento.” Não é para todos os espíritos.” (Rui)
“A tomada de decisões em grupo, por consenso e votação faz com que avancemos um pouco na pesquisa.” (Joana)
“É uma forma de discussão mais exigente. Saio daqui mais “pesada” que das outras sessões de Cafés Filosóficos em que a discussão é mais leve.” (Chantal)
Moderador: Tomás Magalhães Carneiro
terça-feira, 19 de Maio de 2009
quarta-feira, 13 de Maio de 2009
Jovens Filósofos - Aula 22
- continuação da aula 21-
"O que é a independência?"
Estrutura da Aula
1) Cada aluno dá um exemplo pessoal onde reconhece “independência”.
“Senti-me independente quando fui pela primeira vez sozinha à padaria.” (Catarina)
“Senti-me independente quando numa aula de filosofia toda a gente mudou de opinião menos eu” (Luis)
“Senti-me independente no dia em que criei a minha empresa de cigarros “Morgas”. (João)
“Fui independente quando, com três anos, os meus pais deixaram-me sozinho na praia e eu encontrei-os sem a ajuda de ninguém.” (Zé Pedro)
“Senti-me independente quando fui almoçar sozinho com os meus amigos.” (Guilherme)
O grupo escolheu o exemplo do Zé Pedro para analisar:
“Fui independente quando, com três anos, os meus pais deixaram-me sozinho na praia e eu encontrei-os sem a ajuda de ninguém.”
2) Hipóteses de definições que se adequem ao exemplo dado.
“Ser independente é estar sozinho mas, mesmo assim, não se deixar levar pelo medo e arranjar uma solução.” (Catarina)
“Somos independentes quando fazemos 18 anos e ficamos independentes,” (Luis)
“Ser independente é fazer alguma coisa por si mesmo e não pelos outros.” (Guilherme)
“Ser independente é agir sem precisar da ajuda de alguém ou com alguém” (Zé Pedro)
“Ser independente é enfrentar obstáculos e fazer aquilo que tem de ser feito. (João)
3) Escolha de uma definição com a qual não concordam.
Escolheu-se a definição do Luis:
“Somos independentes quando fazemos 18 anos e ficamos independentes,” (Luis)
Razões para a escolha:
“Não se adequa ao exemplo do Zé Pedro.” (João)
“Há crianças independentes.” (Catarina)
“Não é esse tipo de independência que procuramos.” (Guilherme)
“Eu não tinha 18 anos qd fiquei sozinho e nesse dia fui independente.” (Zé Pedro)
4) Escolha de uma definição com a qual concordam e sobre a qual iremos trabalhar.
Escolheu-se a da Catarina.
“Ser independente é estar sozinho mas, mesmo assim, não se deixar levar pelo medo e arranjar uma solução.”
5) Objecções à definição:
“Não é preciso sentir medo para sermos independentes.” (João)
“Também não é preciso estarmos sozinhos para sermos independentes.” (Guilherme)
Concluiu-se que o essencial da definição estava no final, na referência à solução.
6) Nova ronda de definições-hipóteses tendo em conta esta descoberta
As duas escolhidas foram:
“Ser independente é arranjar uma solução para um problema que se tem.” (Catarina)
“Ser independente é arranjar uma solução para um problema de dependência.” (João)
7) Clarificação de posições.
Tentou-se perceber qual a diferença entre as duas definições e concluiu-se que uma era mais geral (Catarina) e outra mais específica (João).
Deixou-se que cada um argumentasse em favor da sua posição, mas que também visse o que há de bom na outra posição:
“O que há de bom em ser-se geral?”;
“O que há de bom em ser-se específico?”
8) Escolha da definição provisória com que terminámos a sessão.
“Ser independente é arranjar uma solução para um problema que se tem.”
Próximas aulas:
Confrontar esta definição com os outros exemplos de “acções independentes” avançados no início da aula e verificar se a definição provisória “aguenta”, se tem de ser alterada ou abandonada.
Acima de tudo vamos "Continuar a Pensar!"
Competências exercitadas nesta sessão:
- Problematização de experiências pessoais
- Conceptualização dessas experiências (do pensamento particular para o universal).
- Descentralização do argumento (sair de “mim mesmo”, aprender a ouvir os outros e ouvir-nos a nós como “um dos outros”).
- Justificação, com boas razões, das nossas ideias e argumentos.
- Tomada de decisões por consenso (reconhecimento da importância do diálogo racional e da correcção mútua).
Quanto ao conteúdo da sessão, os alunos parecem ter percebido a dimensão responsável e pessoal do conceito de independência, por oposição à dimensão social e “legal” da maioridade. Veja-se como a definição “Somos independentes quando fazemos 18 anos” foi prontamente rejeitada pela turma.
Jovens Filósofos - Aula 21
Estrutura da Aula
1) Resumo
Pediu-se aos alunos que lessem o texto – leitura partilhada – e o resumissem numa frase.
João – “Cada um tem de se contentar com aquilo que tem.”
Luis – “Algumas pessoas podem ter ideias diferentes umas das outras.”
Paulo – “O que sonhamos às vezes acontece na realidade.”
Zé Pedro – “Não devemos parar de seguir os nossos sonhos só porque as pessoas não nos ajudam a conseguí-lo.”
Objectivo deste exercício - Interpretação do texto, síntese das ideias principais.
2) Análise
De seguida é pedido a cada aluno que escolha uma frase com a qual não concorda e que diga por que não concorda com ela.
exemplo:
Zé Pedro – “Não concordo com a frase do João pois a história não fala sobre “quem tem o quê.”
Objectivo deste exercício – Fazer com que os alunos identifiquem em concreto o que está mal nos argumentos dos outros, por oposição à tendência normal de dizer que “não concordo porque não gosto.”
3) Argumentação
É dada a palavra ao aluno cuja frase foi criticada que tem a oportunidade de defender a sua ideia(com argumentos e excertos do texto), ou então de aceitar a crítica e mudar a sua frase.
Objectivo deste exercício – Confrontar os alunos com críticas às suas ideias fazendo-os ver que é, exactamente, uma crítica às suas ideias e não a eles próprios.
Ao poderem mudar as suas frases os alunos sentem que podem ganhar alguma distância em relação às suas opiniões anteriores que não estão “escritas na pedra”.
Procura anular-se desta forma a tendência infantil (e que muitas vezes se mantém pela vida fora) de defender a todo o custo tudo aquilo que dizemos, apenas porque fomos nós que o dissemos.
4) Conceptualização
Identificação em grupo das ideias principais de cada frase e dos conceitos por detrás dessas mesmas frases.
João – “Cada um tem de de se contentar com aquilo que tem.” – Conformismo
Luis – “Algumas pessoas podem ter ideias diferentes umas das outras.” – Coragem e criatividade.
Paulo – “O que sonhamos às vezes acontece na realidade.” - Fantasia
Zé Pedro – “Não devemos parar de seguir os nossos sonhos só porque as pessoas não nos ajudam a conseguí-lo.” – Dependência
Objectivo deste exercício – Incentivar os alunos a conceptualizar os valores pressupostos atrás dos vários argumentos. Fazê-los subir um patamar na forma de abordar a realidade: do particular para o universal. A importância deste tipo de exercícios é enorme, uma vez que este movimento de intelectual de conceptualização é a própria essência do pensamento filosófico.
5) Síntese e confrontação
Regresso ao texto e ligação ao trabalho efectuado nas aulas anteriores através da pergunta:
“O caracol da história é dependente ou independente?”
A resposta a que chegaram por consenso foi:
“O caracol era dependente pois precisava de pedir ajuda aos outros para concretizar os seus objectivos.”
[Nota: Deixou-se uma questão em aberto para os alunos pensarem: em casa:
“Toda a gente que precisa de ajuda para atingir os seus objectivos é dependente?”]
Principais competências exercitadas nesta sessão
- Interpretação e resumo (encontrar as ideias principais de um texto);
- Conceptualização (encontrar os conceitos presentes nos seus argumentos)
- Argumentação (confrontar as suas ideias com as ideias dos outros).
Na próxima aula (Diálogo Socrático) procuraremos uma definição consensual para uma das questões saidas desta sessão: “O que é a independência?”
segunda-feira, 27 de Abril de 2009
10º Café Filosófico Clube Literário do Porto

Diálogo Socrático -
O que é o Equilíbrio?
No Café Filosófico de ontem (26 de Abril) procurei introduzir um método de discussão diferente dos que costumamos seguir neste encontros – o Diálogo Socrático.
Num Café Filosófico comum discutem-se sobretudo temas (a partir de um texto, de uma música, um excerto de um filme, um quadro, etc.) e a palavra é dada aos participantes para estes desenvolverem livremente as suas ideias sobre o tema e, dessa forma, verem as suas ideias postas em confronto e serem desafiadas pelas ideias dos outros participantes. É um método aberto no sentido em que raramente se chega a uma definição concreta, ou a uma conclusão consensual sobre o tema em discussão e ps participantes têm total liberadade para aprofundarem o tema na direcção que muito bem entenderem.
Talvez devido a isso, normalmente saimos de um Café Filosófico com uma certa sensação de incompletude que é, julgo eu, um dos motivos pelo qual tanta gente volta sempre aos Cafés Filosóficos. No fim de uma sessão de Café Filosófico sentimos um misto se satisfação pela possibilidade que tivemos de trocar ideias de forma agradável e, ao mesmo tempo, de insatisfação pelas dúvidas e certezas abaladas que este género de discussão costuma provocar em nós.
O método que experimentámos ontem é um pouco diferente. O Diálogo Socrático foi esboçado por Leonard Nelson no início do século XX e popularizado por Lou Marinoff no seu livro “Mais Platão e Menos Prozac” (sugestão do nosso amigo José Artur).
Num Diálogo Socrático discutem-se conceitos, sendo que o seu objectivo principal é encontrar, por consenso, uma definição para um determinado conceito filosófico
Chama-se “socrático” a este método pois parte do pressuposto que todos temos de alguma forma em nós de forma implícita o conhecimento de conceitos como “a justiça”, “o amor”, “a amizade”, etc. E este é também o pressuposto da teoria do conhecimento Socrático/Platónica (Platão defendia que a alma contemplou o mundo das Ideias antes de “entrar” no nosso corpo e que conhecer não era mais que lembrar o que a nossa alma outrora contemplou).
Segundo Nelson todos temos em nós esse conhecimento implícito. Possivelmente não através de uma contemplação da alma, mas através da experiência pessoal de cada um. A título de exemplo, se nos pedissem para definirmos “justiça” todos teríamos alguma dificuldade em fazê-lo, no entanto se nos pedissem para indicarmos algumas situações justas e outras injustas poucos de nós hesitariam.
O que se procura fazer num Diálogo Socrático é, exactamente, tornar explícito esse conhecimento implícito que cada um de nós possui, e fazê-lo a partir da experiência pessoal de cada um dos participantes, usando-a “como base para encontrar uma definição universal, explícita e exacta” do conceito em discussão.
Para esta discussão o grupo decidiu procurar definir um valor que alguns afirmaram ser determinante nas suas vidas: o equilíbrio. Assim a tarefa a que nos propusemos nas duas horas e meia seguintes foi tentar definir "o que é o equilíbrio?”.
O que é o equilíbrio?*
Partimos de um exemplo pessoal sugerido por um dos participante, o Ricardo, de um castigo “injusto” aplicado pela sua mãe enquanto novo e que depois foi de alguma forma compensado pela descoberta de que esse castigo foi bem intencionado. Encontrámos o equilíbrio nesse último passo do episódio relatado, ou seja, no momento em que o Ricardo percebeu que a injustiça cometida pela sua mãe estava, de alguma forma, justificada pelos bons motivos que levaram até ela.
Depois de encontrar o ponto concreto em que se deu o “equilíbrio” é chegada a altura de o procurar definir.Num primeiro passo, as definições de “equilíbrio” teriam de se referir ao exemplo particular relatado pelo Ricardo.
A primeira definição sugerida pela Maggie,
“Equilibrio é a racionalização de algo”,
mostrou uma característica, a nosso ver, necessária à definição de equilíbrio (consciência) que não mais seria largada pelo grupo. No entanto a consciência não é uma condição suficiente de um estado de equilíbrio – nem todos os estados de consciência são estado de equilíbrio. É necessário algo mais e foi esse algo mais que continuámos a procurar.
Não demorou muito até que o próprio Ricardo avançasse com a primeira definição da tarde que o grupo procurou aprofundar.
“Equilíbrio é um estado utópico (no sentido de ideal) em que há uma interacção de causas e reacções, e a consciencialização das mesmas no espaço e tempo global e individual.”
Outro participante, o Tiago, avançou com a proposta de que o equílibrio é uma
“crença humana, baseada numa ideologia acerca do funcionamento do universo...”
Discutimos esta ideia que abriu portas para uma definição de equilíbrio relativa ao sujeito, mas seguímos sobretudo a segunda parte da sua definição, que estava de acordo com o que os outros participantes pensavam.
“…segundo a qual há uma integração harmónica de todos os episódios aí ocorridos na sua totalidade.”
A Raquel adiantou algo a esta ideia de integração harmónica e sugeriu que
“o equilíbrio é a solução mais vantajosa entre várias hipóteses geralmente antagónicas”, ao que o Artur completou com a ideia de que
"o equilíbrio é um estado de conciliação."
Eu próprio sugeri que se juntasse às ideias de “integração harmónica”, de “solução mais vantajosa” e de “estado de conciliação” (juntamente com a ideia de um ideal regulador apontada pelo Ricardo no início) o conceito de “síntese”. A sugestão foi aceite pelo grupo e nessa altura estávamos prontos para uma primeira tentativa de encontrar por consenso uma definição de equílibrio:
“Equilíbrio é um estado consciente de regulação interna em que se opera uma síntese entre hipóteses geralmente antagónicas no sentido de um bem-estar individual.”
Julgo que é uma definição inicial bastante satisfatória. É importante sublinhar que esta definição, apesar de se querer universal, tinha por “objecto orientador” o episódio concreto relatado por um dos participantes no início da sessão. Apesar disso parece-me ser uma definição bastante sólida e capaz de enquadrar muitas outras situações concretas de “equilíbrio” – exactamente aquilo que se procura numa definição de um conceito.
Discussões subsequentes procurariam confrontar esta definição universal com outros exemplos particulares e, se fosse caso disso, aperfeiçoaríamos a definição até encontrar uma que fosse “à prova de fogo.”
Então aqui fica a nossa primeira contribuição para um futuro Dicionário Socrático Um Café.
Equilíbrio – estado consciente de regulação interna em que se opera uma síntese entre hipóteses geralmente antagónicas no sentido de um bem-estar individual.
nota: Por curiosidade procurei algumas referências ao conceito de equilíbrio e encontrei esta ligada ao taoismo:
“O Tao é o Uno. Do Uno vem o yin e o yang: deste dois vem a energia criadora. Toda a vida encorpora o yin e abraça o yang e através da sua união alcança a harmonia.” (Tao Te Ching)
A nossa definição não tem o sabor de uma linguagem milenar mas tem a vantagem de não se perder em conceitos igualmente dificeis de definir como “energia criadora”, e “harmonia”.
quinta-feira, 26 de Março de 2009
9º Café Filosófico Biblioteca Almeida Garrett - Zero Pax
A ideia era que alguns estudantes de filosofia aparecessem (esta sessão realiza-se no âmbito das actividades do Departamento de Filosofia na 7ª Mostra da Univ. do Porto), mas parece que, com a honrosa excepção do meu colega Zé que apareceu por lá no final, discutir filosofia não foi uma prioridade para os estudantes de filosofia - Estranho?
De qualquer forma a tarde salvou-se quando um ex-professor meu (e organizador da Mostra) se apiedou da minha solidão e me convidou a visitar uma escola primária muito especial, dedicada ao "ensino pela arte" onde se dá Filosofia com Crianças - Os Gambozinos.
Aí, eu, três professores de Filosofia e uma dúzia de crianças estivemos umas boas duas horas a debatermo-nos com questões tão difíceis como "O que é a Filosofia", "Para que serve?", "O que é um filósofo", "O que é um não-filósofo? - "Um morto!" foi a resposta do Miguel.
Outras questões em discussão: "A filosofia traz felicidade?", "A filosofia é útil?", "Um filósofo é mais útil que um carpinteiro?", "O que é ser útil?", "Podemos gostar de coisas inúteis?", etc.
Graças a estes miúdos - e à equipa dos Gambozinos - voltei a casa com aquele sentimento de plenitude (uma tranquila aceleração mental) com que normalmente saio dos Cafés Filosóficos.
Pela primeira vez fiquei contente com o desinteresse a que a filosofia normalmente é votada.
quarta-feira, 25 de Março de 2009
8º Café Filosófico - Um Café ao vivo

Perguntas discutidas
O que é ser bonito ou feio?
Serão os olhos dos outros o nosso espelho interior?
É mais difícil viver sem espelhos ou sem o olhar do outro?
Porque é que a imagem exterior é tão importante?
O Sr. Valéry tinha medo de si próprio?
O Belo é intemporal?
Próximos Cafés Filosóficos
Sexta-Feira, 27 - Cafetaria da Biblioteca Almeida Garrett Porto (17h00)
Sábado, 28 - Cafetaria da Biblioteca Almeida Garrett Porto (17h00)
Domingo, 29 - Clube Literário do Porto (17h00)
terça-feira, 10 de Março de 2009
Um Café "ao vivo" no Breyner 85_Café Filosófico às 14h00

6º e 7º Cafés Filosóficos
Dia 22 de Fevereiro no Clube Literário do Porto
Tema: O Bem e a Justiça.
Discussão em torno de dois excertos da "República" de Platão:
Por que é que valorizamos a justiça?; Algo é bom em si mesmo ou pelas suas consequências?; etc
7º Café Filosófico
Dia 26 de Fevereiro na Cadeira de Van Gogh
Tema: Os pais têm o direito de educar os filhos como querem?
Discussão em torno da reportagem da SiC Família Paraíso
domingo, 22 de Fevereiro de 2009
5º Café Filosófico - Breyner 85
Eramos poucos participantes mas, também como poucos, entregamo-nos de corpo e alma a discussões acerca do corpo e da alma, e não só.
Neste não só inclui-se uma interessante discussão, que iniciou o Café Filosófico, acerca de diferentes significados do conceito de pertença.
"Os filhos pertencem aos seus pais?", foi a pergunta do Pedro, arquitecto, que espoletou a discussão. Ao tentar lidar com esta pergunta arriscaram-se algumas definições de "pertencer" claramente insatisfatórias como "Pertence-me apenas aquilo que posso usufruir totalmente e da forma que eu quiser". Esta definição mostrou-se insuficiente pois dizemos de uma série de objectos que nos pertencem sem que, no entanto, possamos "usufruir deles totalmente e da forma que quisermos". O caso de uma arma de fogo vem-nos rapidamente à ideia. É nossa, no sentido em que nos pertence, sem que, no entanto, possamos matar alguém com ela. Claro que num certo sentido até podemos matar alguém com ela, mas nesse sentido também podemos usufruir dos nossos filhos "totalmente e da forma que quisermos" e, ainda nesse sentido, eles pertencer-nos-iam. Ora isto é exactamente o contrário do que a primeira definição pretendia, logo, algo parece estar mal com a definição.
Depois andámos em volta de uma série de nuances relativamente a diferentes tipos de pertencer: uma imposição é algo que nos pertence contra a nossa vontade; acarinhar é uma forma de nos relacionarmos com algo que sentimos ser nosso; controlamos o que julgamos que é nosso; ajudamos o que é nosso, etc.
O Ricardo, artista plástico, levou a discussão para outro campo. O seu comentário que perseguimos foi: "Eu não me pertenço." Instado a transformar este seu comentário num argumento que nos convencesse usou de uma imagem que acabou por ser útil para o resto da discussão: "Eu não me pertenço, da mesma forma que a electricidade não pertence ao cabo."
Fomos atrás desta analogia e do que ela sugeria. Quisemos saber se era uma boa analogia, ou seja, se passava realmente a ideia que pretendia. A de que o Eu não pertence ao corpo e é, mesmo, algo distinto do seu mero condutor, ou seja, do corpo.
Uma das grandes mais valias destes Cafés Filosóficos é, não só, a disparidade de pontos de vista acerca de qualquer assunto que se discuta, mas também o confronto entre formas de raciocinar e argumentar muito distintas. Isso notou-se quando o Tiago, engenheiro eletrotécnico e filósofo por vocação, julgou ter encontrado algo de iluminador na imagem do Ricardo e a tentou dissecar através de um desenho - que fez no quadro magnético que costumamos usar nestas sessões - em que procurava explicar como a electricidade se manifestava e, percebendo isso, tentar compreender de que forma é que esta analogia podia explicar algo acerca dos nossos processos mentais. Ou seja procurar perceber em que é que a electricidade e o cabo condutor se assemelham, respectivamente, ao corpo e à mente.
A primeira ideia a sair desta tentativa de racionalizar a imagem fornecida é a de que é impossível haver electricidade sem um condutor (cabo, àgua, ar, etc.), assim, e ainda dentro dos parâmetros da analogia, não seria possível uma mente sem um corpo condutor. Ou seja, esta primeira ideia explicativa aceitava e dava um maior sentido à imagem que o Ricardo nos passou.
O que nos afastou da imagem do cabo e da electricidade foi a compreensão de que há algo característicamente associado à ideia de mente e que não está presente na noção de electricidade, ou seja a noção de Eu. Algo, que não é o corpo e que confere unidade aos impulsos electricos (sinapses cerebrais, etc.) que fornecem a nossa mente. Sem essa unidade "auto-reguladora" não podemos falar de mente e muito menos podemos falar de Eu. A imagem da electricidade e do cabo serviu para nos trazer até aqui, mas neste ponto teve de ser abandonada.
Avançamos um pouco mais explorando algumas consequências da ligação (ou não) da mente ao corpo e caímos na velha discussão que opõe deterministas e indeterministas acerca da mente.
Em debates de Filosofia da Mente, um dilema comummente aceite acerca deste problema é o apresentado por Tim Crane em "Elements of Mind". Aqui Crane argumenta que, ou o mundo é causalmente fechado (ou seja tudo o que acontece no mundo é físico e regido por leis físicas - o chamado ideal da completude da física), e nesse caso vivemos num mundo determinista* em que mesmo os nossos fenómenos mentais estão determinados por eventos físicos anteriores (ou seja, não somos livres), ou então se queremos continuar a acreditar que somos livres e que a mente tem poderes causais sobre o mundo, temos de negar a completude da física. **/***
As opções aqui são as seguintes:
1) Monismo - aceitamos que a mente é algo que pertence ao mundo físico (e então temos de rever o nosso conceito comum de mente);
2) Dualismo - defendemos que a mente é algo distinto do físico, mas que não tem poderes causais sobre o mundo físico (esta ideia de que a mente é superveniente em relação ao corpo tem claras consequências importantes sobre outros conceitos como o de livre arbítrio);
3) Emergentismo - negamos que o mundo físico é causalmente fechado e abrimos assim espaço para uma mente que ao mesmo tempo faz parte do mundo físico e é livre.
Foi esta terceira via a seguida pelo nosso engenheiro electrotécnico para quem a própria matéria ainda tem muito de misterioso e que não é seguro que seja de todo determinista. Neste sentido a ciência física, poderá ser ela própria indeterminista e isso abre espaço para uma concepção da mente que ao mesmo tempo pertence ao mundo explicado pela física, mas que é também indeterminista e, possivelmente, livre.
Independentemente da verdade destas conclusões é fascinante assistir à construção e destruição de ideias e argumentos filosóficos mesmo à nossa frente. Num bom Café Filosófico, como foi este no Breyner 85, assiste-se a todo o processo de pensamento que foi percorrido por outros pensadores antes de nós (Descartes, David Hume, David Chalmers , ou Daniel Dennett ) e que podemos encontrar em diversas obras de filosofia (Meditações Metafísicas, Investigação sobre o Entendimento Humano, The Conscious Mind ou Elbow Room - para citar apenas uma obra de cada um destes filósofos).
A diferença é que num Café Filosófico temos o privilégio de vermos surgir essas ideias à nossa frente, como se da primeira vez se tratasse.
*O problema aqui é que ao admitirmos na nossa visão do mundo algo como uma mente (no sentido comum de mente enquanto algo com certos poderes causais no mundo físico, como quando penso que me vou levantar e sair da sala e efectivamente levanto-me e saiu da sala) estamos a introduzir uma variável estranha ao sistema físico que se quer completo e autónomo.
** Uma pequena contribuição minha para este assunto aqui
*** Uma pequena contribuição do Miguel amen para este assunto aqui
Estes Cafés Filosóficos no Clube Breyner 85 realizar-se-ão todas as terceiras 5as feiras de cada mês às 21h30.





